WRC: Agora é que é!

Os saudosistas dos ralis têm por hábito dizer que antigamente é que era, principalmente quando se referem dos Grupo B. Por uma questão de idade, não tive a felicidade de ver nenhum rali dessa época ao vivo, mas vi muitos outros desde então e guardo (muito) boas recordações da maioria.

Ainda assim, quando comparo o passado com o presente, parece-me que estamos a assistir à melhor era de sempre deste desporto. Já o senti relativamente aos RC1 que vigoraram de 2017 a 2021, mas os carros actuais parecem ser ainda mais brutais (não confundir com bonitos!), potentes e ruidosos (há que aproveitar enquanto não vêm os eléctricos).

Junte-se ao “menu” um leque de pilotos extremamente rápidos, organizações de grande nível e uma excelente plataforma de divulgação (WRC+) e o resultado só pode ser (absolutamente) fantástico! É claro que seria desejável ter mais equipas oficiais, mas as que lá estão são de grande nível e, felizmente, têm apresentado um leque alargado de pilotos, que permite que a maioria das provas tenham, pelo menos, 10 RC1 à partida. Se fossem 20 era melhor? Claro que sim, mas o que temos não é de desprezar e custou muito a obter!

O início do mundial de 2022 reservou-nos uma prova sem igual. Os novos RC1 agradarão mais a uns que a outros, mas deverá ser praticamente unanime a opinião de que se tratam de carros absolutamente brutais! O exagero da aerodinâmica, o barulho que fazem e a potência que têm fazem-nos olhar para eles com respeito e ter natural admiração por quem os conduz no limite.

Dos “Seb” já muito se disse, pelo que não me irei alongar a esse respeito. Qualquer um merecia vencer (possivelmente até mais aquele que acabou derrotado), mas desta vez a sorte sorriu ao mais velho. Mais há outros vencedores do Monte Carlo.

Dois deles são, logicamente, Isabelle Galmiche e Benjamin Veillas. Ilustres desconhecidos da maioria, aceitaram o desafio de navegar os dois melhores pilotos de todos os tempos, na prova mais mediática de todas! E fizeram-no com todo o sucesso, não cometendo o mínimo erro. É certo que ambos já estavam habituados a cantar notas aos respectivos pilotos (faziam-no regularmente, em testes, quando Elena e Ingrassia não podiam, mas aí os erros pouco importam), só que agora tudo era diferente e ambos cumpriram o desafio na perfeição. Chapeau! Eles, mais até do que os respectivos pilotos, mereciam a vitória. Esta foi para a Isabelle, mas a primeira do Veillas também não deverá demorar muito a chegar.

O outro vencedor do Monte Carlo foi Malcom Wilson. O inglês há muito que faz omeletes sem ovos. Na maioria dos anos, sem apoios para poder contar com pilotos de primeira linha, lá vai levando a água ao seu moinho através de uma gestão cuidada da equipa, socorrendo-se de pilotos que não conseguem lugar nas equipas de ponta e de alguns pilotos pagantes.

Quase todos os pilotos da categoria principal passaram pela M-Sport em algum momento da sua carreira, o que mostra bem a importância que esta tem para o mundial. Suportando-se também na produção de carros das categorias inferiores, como os R5, Wilson mantém-se desde o final da década de 1990 à frente dos destinos da M-Sport, com o sucesso que se conhece.

Se os resultados nem sempre foram os merecidos, raramente isso terá ficado a dever-se à qualidade dos carros construídos. Desta vez, aproveitando um conjunto muito favorável de circunstância e muita inteligência, os ingleses aproveitaram e venceram. Bem merecem e é bom que a Ford saiba retribuir!

Para finalizar, deixo uma pequena reflexão sobre o actual sistema de pontuação do mundial. Olhando para a classificação vemos que o “líder” é… Rovanpera! Esquecendo os Seb, que não farão o mundial, foi o finlandês que melhor aproveitou as regras de pontuação em vigor.

Depois de um início muito difícil, o jovem finlandês ligou o turbo e, aproveitando também os erros alheios, subiu até ao 4.º posto. Juntando-lhe a vitória na Power Stage, acabou por somar mais pontos do que Breen, que terminou no pódio! Estranho, não? Todos já nos habituámos à evolução que o mundial sofreu ao longo dos tempos, mas talvez ainda existam aspectos que possam ser melhorados.

Percebem-se as razões que permitem aos pilotos regressar às provas em sistema de Super Rally e também os pontos atribuídos na última especial (Power Stage). Mas não deixa de ser estranho que um piloto que termina no pódio acabe por somar menos pontos do que um que termina fora dele! No meu ponto de vista há duas formas de melhorar o sistema actual de pontuação. Em ambas manter-se-ia o sistema de pontuação relativo à classificação final da prova, mas alterava-se o sistema de pontuação da Power Stage (PS).

A primeira opção passaria por atribuir pontos na PS apenas aos 3 primeiros classificados da mesma (3-2-1). Este sistema tem a desvantagem que se conhece: os pilotos que regressam em Super Rally andam a manhã toda de domingo a poupar pneus, para depois atacar na PS.

A segunda opção seria atribuir 1 ponto por cada vitória em especiais, eliminando a pontuação da PS (que teria o mesmo peso das restantes especiais). Atendendo a que as provas actuais têm em torno de 15 especiais, um piloto regressasse à prova em Super Rally até poderia conseguir minimizar a desistência, mas dificilmente conseguiria obter mais pontos do que os pilotos que terminam no pódio (até porque esses acabam, naturalmente, por ganhar algumas especiais ao longo da prova).

Este sistema é o que mais agrada, porque premiaria não só a regularidade de quem termina as provas, mas também a rapidez de quem não se limita a querer “apenas” chegar ao fim.

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