WRC 2022 – O início da era Rovanperä?

Há muito que era aguardado o efeito Kalle Rovanperä no mundial de ralis. Filho de um excelente piloto, desde cedo mostrou os seus dotes de condução. Atualmente com 21 anos, a sua mestria ao volante de um carro de rally já era apreciada com 8 anos, como se pode verificar em inúmeros vídeos disponíveis no YouTube.

É verdade que a última década e meia foi dominada pelos franceses, perdão, pelos superdotados Sebastien (Loeb e Ogier), razão pela qual, se tivermos apenas em conta a nacionalidade, ficamos com a ideia que a França é a superpotência dos ralis, com 18 títulos dos 43 títulos já atribuídos. No entanto, se atendermos à representatividade de cada país, verificamos que a Finlândia conta com 13 títulos conquistados por 6 pilotos distintos (Vatanen, Mikkola, Salonen, Kankkunen (4), Makinen (4) e Gronholm (2)), enquanto os 18 títulos da França foram da responsabilidade de “apenas” 3 (Auriol, Loeb (9) e Ogier (8)).

A França tem, pelo menos desde o início do século XXI, uma escola bem definida de pilotos, assente numa lógica de promoção e apoio a jovens talentos, que tem dado os seus frutos. No entanto, para mim, a Finlândia continua a ser a meca dos ralis. Desde sempre que este país nos presenteou com grandes pilotos e se, no passado, a maioria pecava por não ser particularmente competitiva em pisos de asfalto, também essa realidade se alterou com o tempo. Longe vão os tempos dos especialistas.

Já em 2016, quando a Toyota, então a preparar o seu regresso ao WRC, testou jovens pilotos na Finlândia (Pontus Tiedmand, Esapekka Lappi e Kalle Rovanperä), o pequeno Kalle, na altura com apenas 15 anos, impressionou! Embora os pormenores do teste nunca tenham sido completamente revelados, como é habitual nestas situações, diz-se que o jovem finlandês foi o quem mais impressionou os engenheiros, pela certeza com que transmitia informações sobre o acerto que pretendia no carro, de cada vez que regressava à assistência. Numa conversa com um ex-colaborador da M-Sport, soube que Rovanperä terá mesmo sido o mais rápido dos 3 jovens. Mas Kalle precisava de ganhar experiência e… idade, pelo que o WRC ainda teria que esperar.

Em 2020, fez uma excelente primeira época na categoria máxima do WRC, tendo terminado 6 vezes no top 5 (em 7 provas pontuáveis), uma delas no pódio, e desistiu apenas 1 vez, por acidente. Nesse ano, foi 5º classificado no campeonato.

Em 2021 tornou-se o piloto mais jovem a vencer no WRC (tendo batido um record que pertencia a Latvala), com a vitória na Estónia. Terminou o ano em 4º, tendo conquistado 3 pódios, 2 deles com vitórias.

Este ano é o que se vê. Dos pilotos que fazem todo o campeonato, foi o que mais pontos conquistou em cada umas das 3 provas já realizadas.

No Monte Carlo começou mal, com problemas de afinação no carro. Resolveu os problemas na 2ª etapa, onde foi o 2º mais rápido (com apenas mais 0.9 segundos do que Ogier) e venceu autoritariamente a power stage. Foi 4º classificado mas, dos pilotos titulares do mundial, aquele que mais pontos conquistou.

Na Suécia, mesmo a abrir a estrada, ganhou 2 especiais da 1ª etapa e terminou o dia em 2º lugar. Assumiu o comando do rally na primeira especial da 2ª etapa, venceu metade das especiais desse dia (3 em 6) e liderou até final. Na power stage foi 2º classificado.

Agora, na Croácia, liderou, como já não se via há muito tempo, um rali de asfalto, tendo concluído a 1ª etapa com mais de 1 minuto sobre o segundo classificado. Na 2ª etapa perdeu 1 minuto com um furo e depois, perdeu a liderança do rally na penúltima especial, quando apanhou chuva e não tinha pneus para essas condições. Venceu a power stage (mais uma) e o rally, onde foi claramente o mais rápido.

Até a momento, liderou em mais especiais do que todos os pilotos juntos (29, no total, contra 25 dos restantes). Venceu 17 delas, sendo que os pilotos mais próximos venceram apenas 6 (Evans, Loeb, Neuville e Tanak).

Atendendo a que Loeb e Ogier foram campeões da categoria máxima do WRC, pela primeira vez, aos 30 anos e o que se seguiu é o que se sabe, podemos questionar até onde poderá ir Rovanperä. Saiba o WRC reinventar-se (a forma como conseguirá conviver com a eletrificação da indústria automóvel é a grande incógnita!), que o finlandês escreverá a sua própria história.

Por agora, ficaremos a aguardar pelo rally de Portugal, para ver o que fará Kalle, numa prova que voltará a contar com o campeoníssimo Loeb (e eventualmente também com Ogier). Mesmo tendo que abrir a estrada no primeiro dia e de ter o foco nas contas do campeonato, não ficarei espantado se o jovem piloto lutar, com os pluricampeões franceses, pela vitória.

João Ricardo Branco

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