Vendaval de emoções da Figueira até Arruda

21.º Portugal de Lés-a-Lés, que liga Felgueiras a Lagos, saiu hoje da Praia da Claridade, com passagem por Lisboa e descoberta do paraíso do surf.

(auto.look2010@gmail.com)

Mar, mar e mais mar. Povo de aventureiros, de ousados navegantes prontos a ‘dar novos mundos ao Mundo’, os lusitanos voltaram a fazer história no mais “oceânico” Portugal de Lés-a-Lés de sempre. Nunca, em 21 anos, a enorme e heterogénea caravana de 2.115 motociclistas tinha andado tanto tempo junto à costa, descobrindo paisagens realmente ímpares. “Postais” que fizeram as delícias, também, dos mais de 200 participantes estrangeiros, vindos em grande número de Espanha, mas também de França, Itália, Suíça, Alemanha, Holanda, Ucrânia, Hungria, Grécia, Inglaterra, Bélgica, Croácia, e ainda de mais longe, desde os Estados Unidos, Canadá, Angola ou Moçambique.

Prova que Portugal não só está na moda como há muito para descobrir… em duas rodas. Foi o caso da ligação entre a Figueira da Foz e Arruda dos Vinhos, ao longo de 345 quilómetros de paisagens fabulosas, saboreadas em animada solidariedade e com muita animação ao longo de descoberta que foi, também, gastronómica.

Percurso muito interessante mas trabalhoso o que a Federação de Motociclismo de Portugal gizou em locais por onde nunca o Lés-a-Lés havia andado, para mostrar praias que são atracção enorme para surfistas de todo o Mundo, e onde se pesca e come o melhor peixe. Afinal, dois importantes cartões-de-visita que ficam mais fáceis de conhecer de moto, como ficou provado num dia em que o Litoral, muitas vezes superpovoado e sem ordenamento, também pode ser simples e belo. E ventoso! Muito vento ao longo de praticamente toda a etapa mas que não fez “voar” a animação do pelotão que, depois da paciência gasta na travessia do Grande Porto na véspera, queria mesmo era andar de moto.

Animação que começou cedinho, com partida para a primeira das 907 equipas às 6 horas, continuando, a uma cadência de 6 motos por minuto, durante mais de 5 horas. Gigantesca caravana que aproveitou as estradas mais despachadas entre a Figueira da Foz e S. Pedro de Muel para “despachar serviço” pela fresquinha, olhando de soslaio e com tristeza para os muitos pinheiros partidos pelo furacão Leslie, com rajadas de mais de 150 km/h, ou para os efeitos do incêndio que destruiu o Pinhal de Leiria.

Mas que não tiveram tempo para apreciar condignamente as praias da Costa de Lavos, Leirosa e Osso da Baleia ou o Ecomuseu do Sal, propostas para um regresso a terras figueirenses em escapadinha de fim-de-semana porque o dia era curto para tudo conhecer. Locais onde resistem paraísos como a Lagoa da Ervideira, verdadeiro oásis entre hectares de pinhais ardidos.

Mas era preciso “dar da perna” passando ao lado, mas em ritmo de passeio que permitiu apreciar o Farol do Penedo da Saudade, um dos muitos encontrados em ano de viagem junto ao mar, ou areal até S. Pedro de Muel. Onde foi descoberto outro Oásis, montando pela Câmara Municipal com o apoio do Moto Clube da Marinha Grande, com tempo para visita à interessante Casa-Museu Afonso Lopes Vieira.

De barriga mais composta, tempo para continuar até Nazaré, já no concelho de Alcobaça, vila piscatória que as ondas gigantes da Praia do Norte, formadas pelo canhão submarino e aclamadas aos sete ventos por Garret McNamara, puseram nas bocas do mundo. E onde não faltou a visita a um interessante museu dedicado, pois claro, às Ondas Gigantes, além de um Porto de Abrigo construído no início dos anos 80 do século passado para abrigar em segurança os marinheiros e que agora ganhou outra expressão com a chegada dos barcos de recreio.

Espaço ecléctico que serviu para acolher os motociclistas em mais um Oásis, organizado pela Yamaha e onde não faltou a novíssima Ténéré 700 que, de tanta curiosidade despertada, quase fazia esquecer o lanche preparado. Pequenas refeições, ligeiras e sempre com águas ou sumos, porque um almoço, pesado, a meio do dia, iria ditar significativa quebra de ritmo, desperdiçando-se o intuito de descobrir o máximo de Portugal em tão pouco tempo.

Tempo e leveza (do estômago) que se agradeceu na subida da Serra da Pescaria, onde o vento começou a soprar com mais intensidade, ou em direcção a S. Martinho do Porto, cuja baía vista do alto da serra revela uma perfeita forma circular. “Milagres” da natureza…

DO OESTE À CAPITAL, “GUARDADOS”

PELA MAJESTOSA SERRA DE SINTRA

Mapa de belezas naturais que não parou de surpreender, voltando “a fazer das suas” em Salir do Porto onde a autarquia das Caldas da Rainha fez questão de em receber os visitantes em grande estilo e com o apoio do Moto Clube do Porto, antes da visita à Foz do Arelho (com direito a ver, ao longe, as Berlengas) e à Lagoa de Óbidos, o mais extenso sistema lagunar da costa portuguesa, com cerca de 7 km quadrados.

Seguiu-se Caldas da Rainha, onde curiosamente se faz a única feira diária de legumes e outras verduras em Portugal; um olhar à distância sobre a bela fortaleza de Óbidos, com convite para descoberta mais demorada para os atempados, passagem pelas vinhas e pomares a caminho do Bombarral – terra de boa pera e curvas excelentes na N8, bem aproveitadas por Joaquim Horta, o actor que depois de tanto ouvir falar do Lés-a-Lés não foi capaz de recusar o convite e alinhar à partida de «uma aventura fabulosa, divertida e onde se descobrem inúmeros locais de grande beleza, verdadeiros tesouros bem guardados do nosso país».

E de novo o mar, na praia de Porto Novo, depois da passagem pelo Vimeiro e do rio Alcabrichel, conduzindo num vale, fechado ao trânsito mas aberto para as motos do Lés-a-Lés, onde a vegetação autóctone garante cenário paradisíaco e de enorme frescura.

Tudo porque o dia era de surf, dos melhores spots nacionais, e por isso, paragem “obrigatória” na praia de Santa Cruz, onde a BP deu outro colorido à paisagem com novo e já tradicional Oásis, mas também em Ribeira de Ilhas ou na Ericeira, cujas características naturais valeram título de Reserva Mundial de Surf, a única na Europa das 6 que existem a nível mundial, com as outras situadas na costa Oeste americana e na Austrália.

Apreciar o mar, mais sereno que o habitual por estas bandas, foi tarefa prazenteira na ligação até Sintra, com descida ao Rio Lizando e à Praia de São Julião antes da prazenteira e pitoresca estrada através de São João das Lampas, a inimitável vista sobre Azenhas do Mar, a Praia das Maçãs e as casas de uma arquitectura de marcado bom gosto ou a linha de eléctrico que leva os veraneantes e turistas desde Sintra.

Momento alto, para muitos que só conheciam o Cabo da Roca de ouvido, a passagem pelo ponto mais ocidental da Europa Continental revelou o porquê da fama que concentra milhares de motociclistas todos os domingos desde há muitos anos.

Além da beleza natural da zona do local onde, como escreveu Camões «a terra acaba e o mar começa», animação acrescida graças a de um dos mais antigos clubes nacionais e um dos criadores do Lés-a-Lés em 1989, o MC Motards do Ocidente que levou rebanho e pastores, bruxas e até a Virgem Maria, entre muitas figuras que mereceram fotografias dos participantes como das centenas de turistas que por ali andavam de máquinas e telemóveis em punho.

Já com o diploma que atesta a presença na pontinha ocidental da Europa continental, muitos curvas de excelente recorte, já dentro do Parque Natural Sintra Cascais, rumo à vila que é a mais famosa estância balnear da zona de Lisboa não sem antes passar pelo sempre ventoso Guincho.

Tempo para descobrir ou recordar as deliciosas curvas que fazem as delícias dos milhares de motociclistas que se juntam no afamado ponto de encontro domingueiro, rumando à Arruda dos Vinhos num trajecto urbano, pois claro, mas surpreendentemente verde, com troços oxigenantes e uma marginal, entre Cascais e Lisboa que, sem o trânsito que a torna tristemente famosa, pôde ser apreciada com outros olhos.

O vento, sempre presente, ajudou a refrescar a extensa caravana de mais de 1900 motos, e, para aqueles que optaram pela paragem em sítio que nem sempre é fácil estacionar, tornou ainda mais impressionantes as vistas sobre a Boca do Inferno, com impressionante ruído oriundo das grutas causadas pela erosão das rochas carbonatas que formam esta costa.

LISBOA COMO NUNCA FOI VISTA… DE MOTO

Lisboa estava perto mas antes paragem em local nobre de Cascais, no Oásis Via Verde – porque parar se pode ter a Via Verde – onde a originalidade voltou a marcar pontos, e a passagem pelo Estoril, terra de palácios, casinos, grandes hotéis, um autódromo, campos de golfe e muito mais. E que tem, também, uma belíssima estrada marginal, a N6 em ligação até à capital, apreciada de forma tranquila, vendo praias e faróis, fortes e restaurantes famosos.

E muitos pormenores que, não raras vezes, passam despercebidos mesmo a quem aqui passa diariamente. Já dentro de Lisboa, passagem pelo Estádio Nacional, em Oeiras, pelo Aquário Vasco da Gama, mandado construir pelo Rei D. Carlos, e pela Torre de Belém, construída em 1520 com o nome de Torre de S. Vicente, antes da paragem em agradável Oásis Honda, com a Ponte 25 de Abril, como pano de fundo.

Tempo para respirar fundo antes de enfrentar o trânsito da maior cidade portuguesa e ainda mais complicado com a massificação do turismo, dos “tuk-tuk” aos autocarros e mini-vans privados, passando por Alcântara, Cais do Sodré, Zona das Naus, gira mas com muito mau piso. Ou a estreia absoluta com um olhar da caravana do Portugal de Lés-a-Lés sobre o Terreiro do Paço, uma das maiores praças da Europa, com 3,6 hectares.

“Aberto” ao Tejo pelo Cais das Colunas, ganhou assim mais um registo histórico o local onde D. Carlos foi assassinado, onde Miguel de Vasconcelos foi atirado de uma janela no fim da União Ibérica, ou onde Fernando Pessoa parava para o café da praxe no Martinho da Arcada.

Mais moderna, com outra arrumação urbanística, o Parque das Nações, nascido para a Expo 98, revelou uma Lisboa diferente, onde brilha a Estação do Oriente, obra do arquitecto Santiago Calatrava, que continua a fascinar portugueses e estrangeiros.

Com a passagem sobre o rio Trancão, nova mudança de enquadramento paisagístico, com passagem por Sacavém antes da entrada em Bucelas, chegando finalmente ao concelho da Arruda dos Vinhos. Onde a primeira função passou pela ajuda à defesa dos exércitos napoleónicos, com subida, em piso de terra, ao muito maltratado Forte da Carvalha.

Uma das muitas fortificações, de planta em estrela e que tinha uma guarnição de 400 homens, que compunham as Linhas de Torres, erigidas no início do século XIX para defender a capital perante as pretensões invasivas napoleónicas. Espírito combativo mostrado pelos elementos do Moto Clube da Arruda dos Vinhos que nem precisaram de recorrer à eficiente forma de comunicação daqueles tempos, passando rapidamente mensagens entre Torres Vedras e Lisboa através de bandeiras.

Bastaram dois dedos de conversa, em jeito de preparação para a festa montada no final da 2.ª etapa, onde não faltou a presença dos Rock em Stock, uma banda de Almada especializada em “covers” de rock português, uma interessante exposição de motos clássicas além de equipamentos e acessórios para máquinas e condutores.

E antes do jantar, tempo para pequenas reparações nas motos, mecânicas ou de pneus, com a presença da Dunlop, mas também para tratar do corpo, com apoio de terapeutas, osteopatas, técnicos de acupuncturas e massagistas do Instituto de Medicina Tradicional.

E com tudo preparado, nada como um bom descanso porque a 3.ª etapa, com 466 km até Lagos, apesar de mais rolantes através da costa alentejana e vicentina, promete mais emoções, com partidas desde as 5h30 da madrugada para uma viagem que vai durar cerca de 10h20. A começar pela travessia do Rio Tejo em Vila Franca de Xira (a partir das 6h00), a paragem em Santo Estevão (6h50), terra do MC Almansor, grandes animadores do Lés-a-Lés aos comandos das eternas cinquentinhas, Alcácer do Sal (8h00) ou o cais palafítico da Carrasqueira (8h40). Depois, Melides e a sua lagoa, Santo André rumo ao forte de Sines (9h55), Porto Covo e Ilha do Pessegueiro até Vila Nova de Milfontes (11h15). Na Zambujeira do Mar, a partir do meio-dia, a Touratech vais mostrar enorme surpresa gastronómica no seu Oásis, antes de Odeceixe, Carrapateira e Vila do Bispo com paragem no Forte de Beliche (14h25). Depois, remate final até Lagos, com passagem por praias de enorme beleza, como Beliche, Sagres, Ingrina, Zavial, Burgau ou Luz antes da festa final que tem início marcado para as 16h30 e de prolongará noite dentro, com música, fogo-de-artifício e muita animação.

 

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