Taye Perry: portista sul-africana “vence” Dakar

A “dama de ferro” levou o FC Porto ao triunfo. Taye Perry, que cresceu numa fazenda perto de Pretória, na África do Sul, foi um “foguete” aos comandos da sua KTM 450 Rally Replica, tornando-se na primeira africana a terminar o Dakar aos comandos de uma moto.

CARLOS SOUSA (carlos.sousa@autolook.pt)

Uma pessoa entusiasmada está disposta a enfrentar dificuldades e desafios, não se deixando abater e transmitindo confiança aos demais ao seu redor. O entusiasmo pode, portanto, ser considerado como um excelente estado de espírito. Taye Perry é o exemplo disso mesmo. A piloto sul-africana foi uma heroína e uma guerreira na prova de todo-o-terreno mais dura do mundo, recebendo em troca o “rótulo” de primeira africana a terminar o Rally Dakar na categoria de motos.

Apesar de alguns percalços, Taye Perry, com o seu pouco mais de metro e meio de altura, soube equilibrar-se na KTM 450 Rally Replica e assombrou o mundo pela audácia como enfrentou as dunas da Arábia Saudita. A jovem piloto sul-africana, ostentou na sua moto da marca austríaca as insígnias do Núcleo Portista da África do Sul – filial n.º 20 do FC Porto, sediada em Joanesburgo, assim como o brasão das armas com a esfera armilar e o escudo português da bandeira nacional.

Taye Perry não desperdiçou a oportunidade de levar consigo, na carnagem no lado direito do tanque de combustível da KTM o símbolo do FC Porto e de Portugal, numa demonstração clara e inequívoca de que o nosso país e o clube “azul e branco” são enormes em qualquer parte do mundo, reforçada ainda quando se trata da prova mais dura e de elevado quilate de todo-o-terreno.

Naturalmente que ninguém, ou quase ninguém, conhece a jovem piloto sul-africana que se apaixonou pelo Dakar quando viu Laia Sanz e outras mulheres a figurar na prova da francesa Amaury Sport Organisation (ASO). Foi a partir desse momento que nunca mais deixou de equacionar na hipótese de também poder tentar a sua sorte.

Integrou o pelotão do Rally Merzouga e Rally de Marrocos e adquiriu algum traquejo para se aventurar no Dakar. E não foi numa moto qualquer. Foi na ganhadora KTM e com o “azul e branco” do FC Porto, com a qual terminou a odisseia árabe na 77.ª posição, depois de ter rodado no top 50, mas que acabou por perder muito tempo numa “emboscada” no deserto, fechando com o tempo total de 62h05m19s, a 22h02m43s do vencedor, Ricky Brabec.

TAYE PERRY DE 1,58 METROS

DE ALTURA FOI GIGANTE NA 42.ª EDIÇÃO DO DAKAR

Ser vencedor não é só aquele que cruza a linha de chegada no primeiro lugar, mas também aqueles que cruzam mesma risca, atrás, mas de cabeça erguida e com o dever cumprido. Que o diga a sul-africana Taye Perry que, com o seu 1,58 metros de altura, foi gigante na 42.ª edição do Dakar, competição disputada pela primeira vez na Arábia Saudita.

A mais pequena piloto a participar na prova da francesa Amaury Sport Organisation (ASO) terminou com sucesso a sua participação da prova mais dura de todo-o-terreno mundial, mas teve de “puxar pelos galões”, por mais que uma vez, para superar as adversidades. Os grandes campeões são moldados de fibra e Taye Perry tem muita história para contar quando chegar a casa. A começar pela 77.ª posição com que terminou a prova, em 93 pilotos que chegaram ao fim e num universo de 144 que alinharam à partida.

Mas a história com muitas aventuras e peripécias para partilhar é aquela que viveu a dois dias do final da competição, numa altura que se desenvolvia a etapa maratona que exigia aos pilotos resistência máxima, principal qualidade para uma prova desta natureza.

Taye Perry encarou a etapa com algumas cautelas dado que iria enfrentar um dos maiores desertos e a maior área contínua de areia do mundo, em que a chegada ao “bivouac” apenas seria permitida assistência entre pilotos. Na sua KTM 450 Rally Replica apenas seguiam algumas (poucas) ferramentas e acessórios a fim de serem utilizados na fórmula de MacGyver.

Uma etapa que consistiam 534 quilómetros cronometrados e uma ligação de 74 entre Haradh e Shubaytah mas que a jovem piloto sul-africana partiu à descoberta para solidificar a sua posição na tabela classificativa. Taye Perry partiu para a tirada na 54.ª posição, quando ainda rodam uma centena de motos, com o tempo de 44h28m34s e, na altura, a 12h29m05s do líder, o norte-americano Richy Brabec (Honda), que, piloto que haveria de vencer a competição de motos.

MAGIA DE MACGYVER NÃO FEZ EFEITO NO DESERTO…

Tudo parecia perfeito. Apenas faltavam dois dias e cerca de 1.173 km para a grande final. Para trás ficaram 6.666 km e conquista do “rótulo” de terceira na categoria “Ladies Bikes” e entrar no “top ten” na categoria de Estreantes. A meta estava prestes e a ser alcançada. No entanto, Taye Perry, que foi á luta e sem ter medo de nada, acabou por não ser bafejada pela sorte, não evitando uma queda ao km 206 e a sua KTM não deu qualquer sinal de querer prosseguir em pleno deserto e no meio de dunas a perder de vista.

Obviamente que também havia movimento. Não era como num ambiente urbano em hora de ponta, mas por ela passavam motos, automóveis, camiões, SSV e quads. O tráfego passava por ali, mas ninguém ousou em parar e prestar auxílio. O tão afamado espírito de Dakar parece ter entrado de folga e, a jovem piloto, de “palmo e meio”, persistia em encontrar a fórmula de colocar a KTM a andar.

O dia estava a terminar e o sol a dar lugar uma obscuridade que, em pleno deserto, fazer estremecer e agitar o nervosismo. Apesar de desalentada, Taye Perry não cruzou os braços e não perdeu a esperança de chegar ao “bivouac” e voltar a integrar o “tecido urbano” nos arredores de Shubaytah.

Como a fé alimenta a relação com Deus, a jovem sul-africana recebeu uma “visita” inesperada que a coadjuvou a sair daquele local. O espanhol Pablo Canto Martinez e o argentino Facundo Jaton, com o Toyota Hilux com o número 389 nas portas, pararam e procuraram coadjuvar Taye Perry a sair daquele martírio.

Estava feito o resgate. Foram centenas de quilómetros a rebocar a jovem piloto que, diga-se em abono da verdade, não é fácil ser atrelada por um carro. Uma tarefa que subsistiu por mais de 18 horas, mas a heroína e guerreira sul-africana chegou a tempo de ajustar o problema na KTM e dormir duas horas na sua minúscula tenda para voltar a acelerar na areia e nas enormes dunas.

HEROÍNA SUL-AFRICANA COMEÇOU

A ANDAR DE MOTO AOS 12 ANOS

Esta foi uma das muitas histórias para contar à posterior, se bem que esta teve um desfecho de enorme significado. Taye Perry tornou-se a primeira mulher africana a terminar o Dakar numa moto, como também passou a ser a mais pequena concorrente, em altura, na história do Dakar.

Medir 1m58 não sinónimo de fraqueza. Bem pelo contrário. A heroína sul-africana, que começou a andar de moto aos 12 anos, surpreendeu o mundo inteiro com a sua agilidade como comandou a KTM 450 Rally Replica com as cores da Nomada Racing e com o número 120. Uma enorme missão com um final feliz ao cabo de uma dezena de dias, em que cinco etapas eram constituídas com mais de 450 km de extensão, em que Taye Perry teve de enfrentar nada menos do que um percurso em que 75% em areia, com as características dunas sauditas a serem o principal obstáculo a enfrentar e ultrapassar. Mas conseguiu com sucesso, e sempre com as insígnias do Núcleo Portista da África do Sul – filial n.º 20 do FC Porto, sediada em Joanesburgo.

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