Paulo Gonçalves: o “rosto” de Esposende

 Depois de chegar ao aeroporto Francisco Sá Carneiro, ao final da manhã, o corpo de Paulo Gonçalves foi escoltado por centenas de motards até Esposende e o funeral vai realizar-se amanhã, sexta-feira, pelas 16h00, na Igreja de Gemeses, em Esposende.

(auto.look2010@gmail.com) – Fotos: TIAGO PEREIRA

O piloto Paulo Gonçalves, que morreu no rali Dakar, foi hoje homenageado por centenas de pessoas, na Praça do Município, em Esposende, onde o corpo fez uma paragem a caminho de Gemeses, onde decorrerá o funeral. Na praça e nas ruas adjacentes, centenas de pessoas cumpriram um minuto de silêncio, quando o carro fúnebre, que transporta o corpo do piloto desde o aeroporto Francisco Sá Carneiro, chegou ao centro da cidade, onde Paulo Gonçalves nasceu e residiu.

Desde o Porto, o cortejo fúnebre foi acompanhado por centenas de “motards” aos quais se juntaram muitos mais à entrada da cidade de Esposende. Os amigos e conhecidos do malogrado piloto, prestaram-lhe a justa homenagem, acompanhando o cortejo fúnebre em direcção a Esposende, terra natal de Paulo Gonçalves.

Benjamim Pereira, presidente da Câmara Municipal de Esposende, lembrou que o momento exige «que todos se despeçam de Paulo Gonçalves com o recato e respeito que se impõe», tendo sido arrepiante o minuto de silêncio a “Speedy” na sua cidade e, que até na morte, a coloca nos píncaros do mundo inteiro.

O cortejo fúnebre de Paulo Gonçalves, que morreu na sequência de queda na sétima de 12 etapas do Dakar, na Arábia Saudita, seguiu para a freguesia de Gemeses, onde o corpo se encontra em câmara ardente, desde as 16h00 desta quinta-feira, estando o funeral agendado para amanhã, sábado, naquela localidade onde nasceu a 5 de Fevereiro de 1979.

Campeão do mundo de Cross-Country e Rally, em 2013, Paulo Gonçalves concluiu o Rali Dakar de todo-o-terreno em segundo lugar, em 2015, prova na qual participou por 13 vezes, tendo concluído quatro delas entre os dez primeiros classificados.

Paulo Gonçalves era o piloto português com mais títulos nacionais e internacionais, numa carreira iniciada no Motocross e que passou também pelo Enduro e TT, ajudando a construir um legado de títulos e vitórias com a Motogomes, equipa de Coimbra que ainda hoje é a que mais ceptros ostenta, conquistados ao longo de várias temporadas de sucesso.

O MUNDO PERDEU UM LUTADOR,

UM PROFISSIONAL QUE NUNCA DESISTIA

Além de ser um dos pilotos com maior palmarés português – 20 títulos nacionais espalhados por disciplinas como o Motocross, Supercross e Enduro –, Paulo Gonçalves era um homem de enorme trato e, por ande passava, deixava a sua marca de colossal delicadeza, sempre com uma “colecção” invejável de amigos, com quem gostava de estar sempre que lhe era possível fazê-lo. Era uma pessoa agradável e muito querida de quem quer que fosse onde quer que estivesse. Esposende, Portugal e o Mundo «perdeu um lutador, um profissional que nunca desistia, uma pessoa pacata, nortenho de gema, com piada», como um dia destes disse Paulo Marques, antigo piloto de Famalicão que foi director da equipa Honda que levou Paulo Gonçalves, pela primeira vez, ao Rali Dakar, em 2006.

Aliás, durante o Rally Dakar, em que esteve em quatro equipas – KTM, Honda, Husqvarna e Hero, esta última em 2020 –, o motor partiu na terceira etapa, tendo sido chegado a ser anunciada a sua desistência, notícia que foi corrigida cerca de três horas depois, uma vez que Paulo Gonçalves estava a tentar reparar o seu veículo ao mesmo tempo que aguardava que chegasse a assistência da sua equipa. Elucidativo em a desistência era palavra proibida no seu cabulário. Devido ao seu gosto por velocidades elevadas, recebeu a alcunha de “Speedy”, em alusão ao personagem animado Speedy González.

PRÉMIO DE ÉTICA NO DESPORTO POR ENORME CONDUTA

Em 2016, o Instituto Português do Desporto e da Juventude atribui-lhe o Prémio de Ética no Desporto por ter parado durante uma das etapas do Dakar 2016, quando liderava a corrida, para ajudar o austríaco Mathias Walkner, que tinha caído. Este ano, quis o destino que o primeiro a tomar noção da situação ocorrida fosse Toby Price, vencedor em moto da edição de 2019 e que disputou a vitória até fim este ano.

O australiano foi o primeiro a ter contacto com Paulo Gonçalves após o sucedido e o último a abandonar o local, numa demonstração do que representa o verdadeiro espírito da prova, o respeito pelo código do Dakar, o de nunca deixar nenhum homem para trás, o mesmo espírito demonstrado por Paulo Gonçalves em 2016.

Na altura, Paulo “Speedy” Gonçalves referiu que «no Dakar o risco está sempre à espreita», admitindo que «não era um herói», mas «um ser humano com respeito pelos outros». «A nossa vida vale mais do que qualquer vitória, sem ela não vencemos. O espírito do Dakar é isso mesmo».

Paulo Gonçalves faleceu aos 40 anos de idade, a fazer o que gostava, na sequência de uma queda durante a sétima de 12 etapas da 42.ª edição do Rali Dakar de todo-o-terreno, na Arábia Saudita. O vencedor da tirada foi o argentino Kevin Benavides, amigo de Paulo Gonçalves, que revelou ter parado no local do acidente, mas que apenas percebeu de quem se tratava mais tarde e não conseguiu parar de chorar.

«Não tenho palavras para explicar a tristeza que sinto. Quando cheguei ao local do acidente, detive-me e parei ao lado do Toby (Price), já lá estavam os médicos e não me aproximei. Não percebi que era o Paulo (Gonçalves) o piloto que estava no chão, a uns 10 metros de mim, pensei que era o companheiro de equipa do piloto australiano, porque, ao sair de trás, perdi a ordem», disse Kevin Benavides.

«Disseram-me para continuar. Cheguei ao abastecimento e outros pilotos revelaram que eras tu que estavas caído. Fiquei sem chão e ainda faltavam 70 quilómetros. Chorei cada quilómetro até ao final», disse o argentino que ganhou nas motos, mas que dedicou o triunfo a Paulo Gonçalves, a quem chama ídolo.

«Ganhei a etapa e dedico-ta, com muita dor. Ensinaste-me a seguir em frente, a sorrir à vida, tens a minha admiração como piloto e agradeço à vida ter-te posto no meu caminho, e poder partilhar momentos incríveis e inesquecíveis contigo», acrescentou. A finalizar, Kevin Benavides diz que Paulo Gonçalves, provavelmente, não quis que ele o visse ali – quando não se deu conta de quem era –, e que o lembrará sempre: «Tenho um anjo que me guiará desde lá de cima. Quero-te para sempre», concluiu o piloto.

Desde aquele dia que, á noite, uma estrelinha passou a brilhar com mais intensidade. Descansa em paz, Paulo.

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