Patrão recorda “Speedy” durante balanço

«O Paulo se estivesse cá nunca iria permitir que algum de nós pensasse em não ir por aquilo que aconteceu», as palavras são do piloto de Seia da KTM durante o balanço da sua participação no Dakar ao lembrar o amigo Paulo Gonçalves.

André Delgado

Mário Patrão fez, esta quinta-feira, em Lisboa o balanço da sua participação no Dakar 2020, que decorreu este ano e pela primeira vez na Arábia Saudita. O piloto português da KTM revelou que foi a edição que “mais o marcou”, onde perdeu o amigo Paulo Gonçalves, mas também porque conseguiu o objectivo: Terminar a prova, depois de dois anos em que não o conseguiu fazer.

«Foi o Dakar que mais me marcou. A mais triste porque perdi um amigo, mas não só por essa parte. Por vezes questionava-me: “Porque é que aquilo aconteceu?”. O meu principal objectivo era chegar até ao final e vir sem mazelas. A minha vitória era acabar e não era ficar entre 20, nos 30 ou nos 50 primeiros, depois de 2 anos péssimos.”

O piloto recordou os momentos que se sucederam à morte de Paulo Gonçalves onde ponderou desistir: «Tivemos dias complicados, o Paulo era nosso amigo, pensas naquele moço holandês (Edwin Straver) que faleceu…A verdade é que só o conheci ali. Quando é um amigo teu ficas com vontade de vir embora, de não querer estar ali», recorda.

Com a cabeça mais fria, Mário Patrão nem sequer coloca a hipótese de não participar na edição do próximo ano, até porque o «Paulo se cá estivesse nunca o iria permitir». «Todos nós sabemos o risco que corremos. Sabemos o risco, mas queremos sempre ir. Queremos ir à luta, à procura de coisas novas. O Paulo se estivesse cá nunca iria permitir que algum de nós pensasse em não ir por aquilo que aconteceu. No Dakar já faleceu muita gente que eu admirava. Não era isso que nos iria tirar foco. A partir do momento que arrancar com a moto [no próximo ano] não me vai passar pela cabeça», acrescentou.

Mário Patrão não é só um piloto, é também hábil nas capacidades de mecânica. Na edição de 2016, chegou a refazer sozinho o motor da mota de Paulo Gonçalves. São essas capacidades que o fazem ser um piloto desejado por qualquer equipa numa prova de resistência.

«A KTM chamou-me em 90% por causa dessa capacidade mecânica que eu tenho. Eles não precisam de mim para ganhar o Dakar, precisam do Mário (Patrão), uma pessoa que os possa ajudar no que é necessário na KTM», afirmou.

Com a mudança de cenário da América do Sul para a Arábia Saudita, o piloto admitiu que esta edição esteve longe de correr bem, contudo recusa-se a apontar o dedo à organização depois dos falecimentos de Paulo Gonçalves e Edwin Straver. O piloto português diz mesmo que era a «hora do Paulo».

«Se a organização esteve bem, não esteve, se teve culpa nas fatalidades, não creio. Acredito que era a hora do Paulo. Não vamos culpar a organização. Imaginemos que ele caia numa duna cortada. Aí 100% a organização teria culpa. Onde o Paulo (Gonçalves) caiu, ele sabia que havia perigo. As coisas não correram bem».

O piloto espera que a organização possa aprender com os erros para que possam ser implementadas alterações nas próximas edições. Sobre a possibilidade de se poder limitar velocidade das motas para 150 km/h, Mário Patrão explica que uma eventual mudança não irá acabar com os acidentes.

«Está em cima da mesa a possibilidade de elas serem limitadas a 150 km/hora. Mas se eu cair a 150 ou 180 o resultado vai ser igual. Se limitarem a 150, eu vou a 140 e apanho um troço perigoso, vou precisar de mota para responder e aí vai ser pior. O caminho será melhorar a navegação, marcar melhor, penso que será mais por aí».

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