Nuno Pinto vinculou-se ao Team Fordzilla

A Team Fordzilla, equipa de simulação da Ford, foi reforçada com a contratação do piloto português Nuno Pinto, que chega para fortalecer as capacidades da equipa de SimRacing na plataforma rFactor2.

(auto.look2010@gmail.com)

Este piloto de 32 anos deu um salto para a fama com a participação no programa McLaren Shadow, que selecionava os melhores simracers para depois os formar em pista “real”. Isto tornou-o num dos pilotos mais prometedores do momento. E depois da sua passagem pela equipa Triple A – propriedade do ex-piloto de F1 Olivier Panis – Nuno Pinto passa agora a fazer parte da equipa oficial de SimRacing da Ford, a Team Fordzilla.

«A chegada do Nuno faz-nos vislumbrar um futuro muito emocionante, porque é o primeiro piloto que chega à equipa para competir exclusivamente na plataforma rFactor2», diz José Iglesis, capitão da Team Fordzilla.

«O nome do Nuno já circulava nas corridas de rFactor2. Quando surgiu à Fordzilla a oportunidade de o contratar, não quisemos desperdiçá-la, porque a sua contratação representa um grande potencial para a nossa competitividade na plataforma rFactor2 – onde não tínhamos presença até ao momento». «O mundo do SimRacing profissional exige uma grande especialização no simulador em que se pretende competir. Quem quer ser realmente bom, tem de ser especialista. É como se no ténis falássemos de diferentes pistas: terra batida, relva», explica José Iglesias.

No horizonte de Nuno Pinto está a participação na próxima época de GT Pro – o campeonato mais importante de carros de turismo da rFactor 2. E esta participação acontecerá já com as cores da Fordzilla. A entrevista a Nuno Pinto sobre sua chegada à Team Fordzilla e a sua experiência como SimRacer impunha-se.

O que é que o levou a aceitar o convite da Team Fordzilla?

É óbvio que em primeiro lugar foi o nome Ford, que é importantíssimo, e, principalmente, ter uma ligação a uma marca como a Ford. Para um piloto português, é algo que poucos ou ninguém tem, a ligação a uma marca desta dimensão. Em segundo lugar, também o challenging, tudo o que está envolvido na ligação a uma marca desta grandeza, todos os deveres e obrigações, e os próprios objectivos definidos pela marca… E como objectivo máximo divulgar o nome da Ford, o meu, e ganhar o máximo possível.

Neste mesmo sentido, com a sua chegada à equipa, quais são os objectivos que define para si e para a equipa?

Sinceramente, ainda não tivemos uma conversa para traçar claramente o objectivo para esta época, mas pelo pouco que falámos e como ainda entrei há pouquíssimo tempo na equipa, o propósito é estar sempre lá em cima o máximo possível, ou seja, obter resultados consistentes e o mais perto do topo possível. Obviamente que ganhar é complicado, como em todos os desportos ao mais alto nível, mas eu, sinceramente, como objectivo pessoal, penso que alcançar sempre o top 10 de forma regular, o “top 5” e talvez alguns pódios. E num futuro mais a longo prazo, chegar ainda mais longe e conseguir alguma vitórias.

Como é que começou neste desporto, quais foram os passos para chegar aqui?

Isto tudo nasce, como em qualquer paixão, desde pequeno. Infelizmente, na vida real, este desporto é muito caro, é preciso muito dinheiro para podermos competir. O bichinho sempre cá esteve, mas infelizmente nunca tive disponibilidade financeira para competir. Então, isto é a segunda melhor coisa, por assim dizer, para matar o bichinho. E quando tive oportunidade de experimentar o simulador pela primeira vez com pedais e com volante, foi aí que tive este primeiro quase impacto de “ok, isto parece ser algo real, ou perto do real”. A partir daqui, comecei a dedicar mais tempo, isto em 2008, quando conduzi no rFactor1, o primeiro simulador que experimentei. Foi aqui que tive o primeiro impacto de um simulador, do que é afinar um carro, do que é mudar mudanças. Nós estamos habituados naqueles jogos da PlayStation em que tudo se faz automaticamente. Num simulador é tudo muito diferente, é um passo em frente e completamente diferente. É um mundo à parte, por assim dizer. Foi a partir daqui que eu comecei a passar mais tempo e a aprender, a desenvolver não só a condução, mas o conhecimento que é preciso para afinar um carro – isto é importantíssimo neste mundo – e aos poucos sem ajuda… Sinceramente, não tive ajuda de quase ninguém, exceptuando quando entrei na equipa de uns amigos, em 2012, cujo convite aceitei e foi quando comecei a desenvolver ainda mais com a ajuda deles. Foi um passo em frente. Depois, em 2015, comecei a dedicar-me quase a 100%: saía do trabalho para o simulador, do simulador para a cama e trabalho no dia a seguir, era basicamente isto. Em 2018, foi quando ganhei a final do McLaren Shadow no rFactor2, fui a Londres, em janeiro de 2019, à final mundial e fiquei em segundo. A partir deste momento passei a dedicar-me praticamente a 100% e a tornar-me, entre aspas, um profissional da modalidade.

Como tem alguma experiência em pilotar carros “reais”, pensa que esta experiência com carros “reais” ajuda a ser um melhor piloto de SimRacing e, por outro lado, é válido dizer que um bom piloto pode ajudar a ser melhor em pista?

Para ser sincero, a minha experiência com carros reais é um pouco de karting e tive felizmente a oportunidade de conduzir um McLaren GT4 de competição, fazendo parte do tal McLaren Shadow Project. O prémio de ter chegado à final foi a oportunidade de fazer algumas voltas em pista. Sinceramente, eu não estava à espera que fosse tão parecido com a simulação. Eu pensei que ia notar uma diferença muito grande de um para o outro. Mas não, é muito mais parecido do que as pessoas pensam. Na minha opinião, talvez seja mais fácil passar da simulação para a vida real, porque na simulação estamos habituados ao que vemos e ao que se sente nos pedais e no volante. Na vida real, sentimos com o corpo todo, com todos os sentidos, estamos lá a 100%, e quando se passa para o simulador é diferente. É quase como se tirassem coisas que estamos habituados a sentir, e então para os pilotos é muito mais difícil passar para um simulador. Isto em regra geral. Alguns pilotos passam para o simulador e são logo rápidos. São casos raros, mas acontece. Ao contrário, é mais fácil. É óbvio que um piloto de simulação não vai chegar de um dia para o outro e vai ser tão rápido como um piloto que tem 10 anos de experiência, mas andar numa pista e ser consistente consegue, não vou dizer facilmente, mas um piloto de topo de simulação consegue passar para um carro real e andar sem grandes dificuldades.

Quais são as qualidades que um bom piloto de SimRacing deve ter?

Em primeiro lugar, ter muita paciência. É logo a primeira característica que devemos ter, porquê? Porque muitas vezes chegamos a um ponto, por muito treino que se tenha, chegamos a um ponto em que não se está a conseguir melhorar e perguntamo-nos sobre o que podemos fazer. E temos de ter paciência, analisar as coisas e às vezes dar um passo atrás: “ok, estou a fazer isto mal, vou mudar a minha maneira de fazer isto e vou passar para outra maneira”. Isto é o ponto básico da simulação, é ter paciência e se as coisas não estão a correr bem, tentar olhar para as coisas de uma maneira diferente. Em segundo lugar, é ter aqueles reflexos, aquele skill necessário para se conduzir com a concentração máximo o maior tempo possível. Isto é importantíssimo, porque eu conheço muita gente que consegue ser rápido durante uma, duas, três voltas, e chega ali e há uma quebra, seja da performance do próprio carro ou mesmo da pessoa, e quebram muito a performance e isso é uma das grandes diferenças entre um piloto bom e um piloto de topo de simulação, sem dúvida nenhuma.

Finalmente, que conselhos daria a quem se queira iniciar neste desporto e se é fácil fazê-lo em Portugal?

Se me fizesse essa pergunta há uns 10 anos, era muito complicado. Havia pouca informação, pouco material. Hoje em dia já é muito mais fácil. Hoje em dia para começar, basicamente, precisamos de um volante e pedais, que qualquer pessoa pode encontrar em qualquer loja, pode encontrar na Internet, pode-se arranjar usado nos sites de venda de material usado, pode-se encontrar em qualquer lado. É muito mais fácil hoje em dia ter acesso a esses materiais. O mais fácil para começar é comprar volante e pedais, colocar numa mesa de computador, se já tiver computador, senão tem de comprar. Depois escolher um simulador indicado para iniciantes. Tem de ser um simulador que não seja muito focado na parte técnica, na parte de desenvolvimento do setup, tem de ser um simulador que seja mais básico, mais para iniciantes. Nisto há varias opções. O mais indicado neste momento para um iniciante talvez seja o Assetto Corsa, porque tem muito carros, muitas pistas, muito tipo de carro, muito tipo de pista, desde um carro com pouca potência até um Fórmula 1, por exemplo, existe muita coisa neste simulador. Para quem está a começar talvez seja o mais indicado. Depois para um nível superior, temos as competições online, iRacing, rFactor2. Isto já é um passo em frente e uma forma de começar a competir mais a sério, por assim dizer.

E muitas horas de trabalho e treino…

Sim, isso sem dúvida. Vou dar-lhe um exemplo, na segunda-feira de manhã recebi uma mensagem que ia ter uma corrida para acesso ao campeonato do mundo de GT com o rFactor2. Recebi a mensagem de manhã, a corrida era às 19h00, estive no simulador a correr desde as 11h00, mais ou menos, até à hora da corrida, e depois da prova saí do simulador às 20h45. Ou seja, foi das 11h00 até às 20h45 sempre aqui.

Percebe-se que este ritmo é quase diário…

Sim, sim, isto é um ritmo diário. Por exemplo, se eu tiver uma corrida amanhã, hoje passo a tarde e talvez a noite de volta do simulador ou a manhã e a tarde. Eu felizmente consigo organizar a minha vida de forma a se fizer manhã e tarde tenho a noite livre, se tiver a manhã livre, faço a tarde e noite, mas isto é sempre 6, 8, 10 horas aqui no simulador. Pode não ser sempre a conduzir, mas estamos aqui a desenvolver algo, ou a nível do setup ou tratar de problemas ou a falar com o team manager ou a falar com colegas de equipa, tentamos ajudar-nos uns aos outros e, basicamente, passamos umas 8, 10, 12 horas por dia de volta disto. As pessoas às vezes pensam que isto é sentar aqui, fazer uma horita por dia, e no dia a seguir estamos a correr. Esta ideia está completamente errada. Isto é uma profissão e é muito cansativo fazer isto diariamente. Por exemplo, de Março a Agosto do ano passado estivemos com cerca de duas a três corridas por semana, sempre.

Isto exige também muita preparação física?

Todo o trabalho que fazemos aqui no simulador já nos dá preparação para as corridas, é como qualquer outro treino para qualquer outro desporto, se estamos a treinar aqui, chegamos à hora da corrida e estamos preparados, mas sim convém fazer exercício físico. Isto ajuda a manter-nos no limite sem quebra de performance e frescos, por assim dizer… Depois há pequenas coisas que vamos aprendendo com a experiência, que ninguém me ensinou, mas hoje poderia ajudar alguém sem experiência a encurtar o percurso de progressão em 80%.

Existe formação ou escolas?

Existem os chamados coaches, os treinadores, isto é quase um “passa palavra”. Temos um piloto de topo no rFactor ou no iRacing que percebe da coisa e entramos em contacto com a pessoa para que ela nos ajude. Mas sim, existem escolas lá fora, sim, existem, noutros países. Nos Estados Unidos, na Alemanha, escolas dedicadas apenas a ensinar aos iniciantes e não só, há pessoas com um nível bom mas que querem chegar ao nível máximo e pagam para avançarem mais rapidamente.

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