No “Monte Carlo” como espectador

João Branco

Este texto não foi escrito ao abrigo do novo Acordo Ortográfico.

 

Este ano realizei um dos meus sonhos de criança, que era assistir ao Rally de Monte Carlo. Ainda me lembro dos tempos em que o Monte Carlo era lá longe, tão longe que os resultados demoravam uma semana a chegar! Uma das muitas memórias que tenho do Monte remonta ao início dos anos 90.

Nessa altura o AutoSport era a minha fonte de informação, mas como o jornal saía à 2ªfeira e o rally terminava no mesmo dia, numa edição vinha a reportagem do que tinha acontecido até à penúltima etapa e depois era necessário esperar mais uma semana para saber como o rally tinha terminado. Muito mudou desde então e não foram só os ralis!

Nesta crónica decidi partilhar a minha experiência como espectador do Monte Carlo deste ano. Inevitavelmente, irei efectuar algumas comparações com o nosso rally de Portugal, pois é essa a minha referência de há muitos anos. Desconheço as dificuldades e complexidades inerentes à organização de uma prova desta dimensão, pelo que só poderei avaliar o sinto como espectador.

O meu primeiro TAP data de 1987. Como estava dependente da boa vontade de quem me levasse, faltei a uns quantos desde então, mas não muitos. Ainda assim tive a felicidade e o privilégio de contar com o apoio familiar a este nível. Sempre tive autorização (e incentivo!) parental para faltar à escola em dia de rally, pelo que não estranharão que tenha sido a minha mãe a levar-me a ver o meu primeiro rally de Portugal.

A minha maior memória dessa prova é a de um Renault 11 Turbo endiabrado, magistralmente conduzido pelo “acrobata” Jean Ragnotti. Não havia a facilidade de tirar mil e uma fotografias como hoje, pelo que essa imagem está gravada na minha memória e em nenhum outro lugar. Os mais de 30 anos que passaram e o exagero próprio da saudade e da visão da criança de então, intensificam aquele momento mágico.

A ida ao Monte Carlo reservou-me um conjunto significativo de surpresas e fez-me recordar esse meu primeiro rally de Portugal. O rally de Portugal dos tempos em que não existiam zonas espectáculo, em que circulávamos livremente pelas especiais e em que cada um escolhia o lugar que mais gostasse. A bem da segurança da prova, no Monte Carlo actual também existem zonas onde não é permitido público, mas até passar o carro da delegada de segurança da FIA (actualmente, a vencedora do TAP de 1982, Michele Mouton), a liberdade é praticamente total!

A gestão dos espectadores é realizada por elementos da organização, identificados como seguranças, que me pareceram suficientemente conhecedores da prova e da realidade dos ralis, o que facilita de sobremaneira o diálogo com os espectadores e evita situações de excesso de zelo. Imagino que a distribuição das centenas de seguranças aos longo dos muitos quilómetros de especiais obrigue a uma logística complexa, pelo que não é de estranhar que isso esteja associado ao apoio dado pela Renault France e ao recurso a dezenas de Dacia Dusters! A dada altura dei por mim, a caminho da especial, no meio de um gigantesco “comboio” destes SUV e, entre as várias dezenas, lá consegui identificar o número 182! Mas acredito que não ficasse por aqui…

A existência de espectadores ao longo de todo o percurso das especiais (os números apontados para Saint-Leger-les-Melezes / La-Batie-Neuve, realizada no sábado, foram de 140 mil espectadores em 16km de especial) aumenta enormemente o risco da prova e a existência de comportamentos irresponsáveis. E embora, no que me foi dado a apreciar, o controlo feito pelos seguranças tenha chegado para as necessidades, o risco da aplicação deste modelo é tremendo, como nos recorda o infeliz acidente de Haydon Paddon em 2017.

Entre as duas passagens na mesma especial, os espectadores voltam a ter liberdade total, o que permite escolher um novo local para voltar a ver os gloriosos malucos das máquinas quase voadoras.

Nos acessos às especiais há placas informativas com indicação dos horários de fecho das estradas. Há elementos da organização (voluntários?), desde muito cedo, a gerir os estacionamentos de quem chega, num trabalho idêntico ao que é feito pela GNR no rally de Portugal. É sugerido que se estacione apenas de um lado da estrada (básico, não?), aspecto que é reforçado nos próprios guias do espectador. Confesso que cheguei com bastante antecedência às especiais, pelo que não tenho percepção se as ordens foram acatadas ou se se gerou o caos com o aproximar da hora da passagem dos concorrentes (como, muitas vezes, se vê em Portugal!). No que vi, a organização esteve perfeita! Apenas um esclarecimento a este respeito: para mim, a ida a um rally está inevitavelmente associada a uma boa caminhada e ao contacto com a natureza. Nesses dias troco o meu jogging por um estacionamento seguro e um bom passeio a pé, pelo que não ignoro as ordens da organização. Se é para estacionar, estaciono!  Também não corro de especial em especial para ver apenas a primeira dezena de concorrentes. Rally para mim é do primeiro ao último, desde os tempos do Pinto dos Santos e da sua maravilhosa 4L.

Mas nem tudo foram rosas nesta aventura. Os guias do espectador fornecidos pela organização são incomparavelmente menos pormenorizados do que os fornecidos pelo ACP no rally de Portugal e foram disponibilizados muito em cima da data da prova. Este aspecto dificulta, naturalmente, a organização atempada da viagem, especialmente quando não há conhecimento prévio do terreno e da prova! Contrariamente ao que é feito pelo ACP, de forma exemplar, a organização não disponibiliza vídeos das ZE, embora este aspecto seja compreensível, atendendo à liberdade dada aos espectadores.

A organização também não se preocupa em disponibilizar sacos do lixo ou WC portáteis. Embora seja lago que se compreenda, dada a enorme dispersão de espectadores ao longo de muitos quilómetros, também mostra que o ACP tem o cuidado de criar boas condições para os espectadores da sua prova. No que respeita aos sacos do lixo, acredito que seja algo que possa ser de índole cultura, sendo cada espectador responsável por levar o próprio lixo ao invés de obrigar as organizações e as entidades locais a incorrer em custos adicionais para o fazer! Apesar de tudo, devo dizer que nos anos recentes também tenho visto bons exemplos no rally de Portugal.

Para finalizar, quero esclarecer que não defendo a aplicação deste modelo na prova portuguesa. Porque não acredito que o ACP tenha os recursos materiais e humanos necessários para tal (daí o recurso à GNR, gratificada, para segurança da prova) e porque, a bem da manutenção da prova no WRC, o esquema utilizado pelo ACP é mais seguro. Temos que ter a consciência que, por muito que gostemos de ralis, não temos o peso do Monte Carlo! Ainda assim, parece-me que o ACP poderia, por respeito a quem gosta de ralis, ir um pouco mais longe, nomeadamente com a criação de mais zonas espectáculo (na verdade, bastaria que divulgassem algumas das zonas de público já existentes!) e dando maior flexibilidade aos peões no acesso às ZE (continuamos a deparar-nos com situações completamente desnecessárias como o corte, aos peões, de algumas zonas de ligação dos concorrentes, por exemplo).

Entenderão os fans de ralis que estar em locais como Sospel ou Sisteron não nos deixa indiferentes, pelo que é natural que já esteja ansiosamente à espera do próximo Monte Carlo!

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