Neve da Serra da Estrela chegou a Lisboa

Foi recriado o transporte de neve da Serra da Estrela para Lisboa sob a forma de gelo. Esse transporte era feito nos séculos XVII e XVIII e agora recriado pelo Clube Escape Livre e Marinha do Tejo, com a estreita colaboração da Toyota.

(auto.look2010@gmail.com)

Ao sexto dia do mês de Agosto do ano da graça de 2021, o Clube Escape Livre, a Marinha do Tejo e a Toyota cumpriram a secular tradição de “Dar Neve a Lisboa”, para que, nos antigos armazéns de gelo do Martinho da Arcada, se voltasse a tomar neve da Serra da Estrela e sorvetes como antigamente.

Pouco passava das 8h00 da pretérita quinta-feira quando o grupo de aventureiros e jornalistas deixou o Vila Galé Serra da Estrela, em Manteigas, e subiu até aos antigos neveiros do Covão da Ametade, na Serra da Estrela, a bordo de duas Toyota Hilux 4×4 para se encontrar com o neveiro-mor, Pedro Fernandes Castello Branco, e os seus ajudantes, ali caracterizados pelo grupo de teatro Hereditas.

Assinado o contrato de transporte de neve, como outrora se fazia, tempo de carregar “as carroças” com alguns quilos de gelo prensado envolto em serapilheira, e seguir caminho rumo ao destino final, o Terreiro do Paço, em Lisboa. Pela frente, estavam trilhos fora-de-estrada para descer a Serra e as antigas estradas-reais que desciam até ao rio.

Como havia explicado na noite anterior em Manteigas, o professor Carvalho Rodrigues, esta tradição secular de transportar neve da Serra até Lisboa começou em 1619, há mais de 400 anos, quando o Rei de Portugal fazia chegar à corte neve fresca da Serra da Estrela, entre os meses de Maio e Setembro, para que a corte pudesse tomar bebidas frescas e fazer sorvetes.

Anos mais tarde, o excedente de neve da corte era distribuído pelos comerciantes do Terreiro do Paço, como o antigo Martinho das Neves, hoje Martinho da Arcada, para que o vendessem à população.

A expedição que partiu da Serra da Estrela, passou ainda por Constância, onde almoçou perto do sítio onde o Zêzere se funde com o Tejo, onde era muitas vezes feito o embarque da neve nos barcos com destino a Lisboa.

Paulo Andrade, presidente da Marinha do Tejo, aproveitou a ocasião para referir que «num levantamento feito em 1820, existiriam 3.600 embarcações entre a foz do Tejo e Vila Velha de Rodão, que asseguravam todo o transporte de pessoas e bens, como a neve, até ao aparecimento da ponte 25 de Abril».

A paragem seguinte fez-se na Casa Cadaval, onde a expedição foi recebida pela Condessa Teresa Schönborn, Marquesa de Cadaval, e já com Ana Abrunhosa, ministra da Coesão Territorial, que se havia juntado à caravana na população de Raposa, ao volante de uma das carrinhas que transportavam a neve.

Ana Abrunhosa aproveitou o momento para referir que «a valorização da nossa história permite construir futuro». «A estruturação de novas ofertas turísticas une os diferentes territórios, tanto por estradas de terra batida, estradas de asfalto ou estradas do mar. Preservando a nossa história e a tradição, construímos também modernidade e futuro».

Antes de um merecido descanso no Resort Praia do Sal, em Alcochete, a caravana jantou no Clube Náutico Moitense, na companhia do vice-presidente da Câmara da Moita, antecipando o embarque naquele cais no dia seguinte.

A neve embarcou no varino “O Boa Viagem”, da Câmara Municipal da Moita e da Marinha do Tejo, pelas 12h00 de sexta-feira com destino ao Cais das Colunas, em Lisboa. Durante a viagem, o mestre fragateiro João Gregório e Paulo Andrade, presidente da Marinha do Tejo que acompanhou toda a expedição, falaram da história destes barcos e da sua importância ao longo da história náutica portuguesa.

Ao longe já se avistava Lisboa, e na margem do Terreiro do Paço, já esperavam a neve os bombos e fanfarras dos arautos do reino. Foi assim, num desfile escoltado pela Polícia Municipal de Lisboa do Cais da Colunas até às arcadas do Terreiro Paço, que seguiu a neve até ao Martinho da Arcada, onde foi recebida por António Marcos Sousa, actual proprietário.

A neve que viajou da Serra da Estrela até Lisboa, foi entregue, simbolicamente, aos diversos representantes do poder local, de hoje e de antigamente.

Primeiro a Ana Abrunhosa, ministra da Coesão Territorial, em plena Praça do Comércio, depois ao vereador Miguel Gaspar, do átrio da Câmara Municipal de Lisboa, e, como há séculos se fazia, à Casa Real Portuguesa, na pessoa do Duque de Bragança, Dom Duarte, que fez questão de vir “tomar neve” com todos os aventureiros ao Martinho da Arcada.

Luís Celínio, presidente do Clube Escape Livre, comentou que «foi um prazer dar vida a esta ideia do professor Carvalho Rodrigues, aplicando todo o conhecimento de expedições fora de estrada do Escape Livre, juntando a modernidade dos veículos 4×4 Toyota com a tradição dos barcos da Marinha do Tejo».

O sucesso desta recriação histórica promete voltar a repetir-se no futuro, e a neve da Serra da Estrela promete continuar a refrescar a capital, pela mão do Clube Escape Livre e da Marinha do Tejo, mesmo nos meses mais quentes do ano.

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