Loeb faz bem ao WRC

Uma das maiores críticas ao valor de Loeb sempre foi o facto ter feito toda a carreira numa única marca, no caso a Citroën, pelo que a sua presença no campeonato de 2019 ao volante de um Hyundai reveste-se de significado especial.

Começo por fazer uma declaração de interesse, para explicar que não era admirador de “D. Sebastião I”, Sébastien Loeb de seu nome próprio, nos primeiros anos do seu reinado, mas depois rendi-me às evidências! Sempre tive uma admiração especial por pilotos finlandeses, espetaculares e destemidos, fruto de uma escola muito bem pensada.

No início do milénio a minha admiração ia para um gigante, de seu nome Marcus Grönholm, praticamente imbatível em anos sim, como aconteceu em 2000 e especialmente em 2002, mas também pouco dado a gestão de corridas e inevitavelmente dado a erros, como era habitual antes da dinastia dos “Sebastiões”.

Até então, a receita para ser campeão do WRC residia em ser um piloto muito rápido, ganhar uma mão cheia de provas por época e acabar outros tantos ralis nos lugares do pódio. Pelo meio admitiam-se umas quantas desistências, fruto de avarias ou de excesso de impetuosidade.

“D. Sebastião I” mudou para sempre esse paradigma e Sébastien Ogier, seu sucessor na dinastia, deu-lhe continuidade com mestria. Na dinastia dos “Sebastiões”, a receita passou a integrar um novo ingrediente, muito raro, especialmente quando se guia ao nível que é exigido para vencer uma prova do WRC: ter um índice de desistências próximo de zero!

“D. Sebastião I” e “D. Sebastião II”, ou Loeb e Ogier como são conhecidos, ilustraram de forma perfeita a aplicação desta fórmula “mágica” nos campeonatos de 2004 a 2016. Não sendo uma receita nova (por exemplo, Waldegärd aplicou-a para vencer o primeiro campeonato de pilotos, em 1979, Röhrl repetiu-a nos anos 1980 e 1982, Salonen mostrou a sua eficácia em 1985, Sainz profissionalizou-a em 1990 e 1992, Kankkunen apurou-a em 1986, 1987 e em especial em 1991 e 1993 e Mäkinen mostrou a sua validade para conquistar o seu primeiro título, em 1996), os “Sebastiões” colocaram-na em prática como nenhuns outros, especialmente pela precisão com que a executaram tantos anos seguidos!

Os detratores de Loeb defendem que o francês nunca teve adversários capazes. Os que o admiram defendem que foi Loeb quem os tornou banais. Certo, certo é que nunca existirá um consenso, dada a subjetividade do que nos faz admirar qualquer um deles.

Loeb fará 45 anos em 2019. Numa altura em que qualquer outro piloto optaria por ficar no conforto do sofá, o francês mostra que continua com imensa paixão pelos ralis e não se importa de medir forças com miúdos que têm idade para serem seus filhos. Independentemente do que venha a fazer, é de se lhe tirar o chapéu. Na minha ótica, o WRC tem muito a ganhar com a presença de Loeb, mas Loeb tem muito pouco a ganhar com a sua presença no WRC! A idade não perdoa, a motivação não poderá ser a mesma que tinha no início da carreia e o peso da família e dos descendentes fazem com pé direito passe, inevitavelmente, mais tempo no travão do que acontecia no passado. Mesmo nestas condições, Loeb ainda tem condições para vencer, como provou na Catalunha em 2018.

Nas provas que fizer em 2019, o francês irá concentrar em si muitas das atenções. Serão muitos os que irão para a estrada para ver passar o pluricampeão francês mais uma vez, o que acrescenta imenso valor a um campeonato que tem tudo para ser de sonho.

Independentemente de voltar ou não a vencer, Loeb não precisa do WRC. Se o faz é porque de facto tem uma paixão pela modalidade que se sobrepõe ao orgulho de quem ostenta 9 títulos e 79 vitórias e que fariam qualquer outro ficar sentado nos louros conquistados. Se não voltar a vencer, o francês não beliscará em nada o que já conseguiu. Mas se vencer, então não poderão existir mais contra-argumentos da real dimensão do valor de el rei “D. Sebastião I”, o primeiro da dinastia.

Opinião – João Ricardo Branco

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Em primeiro lugar muitos parabéns pelo lugar de cronista numa revista que promete ser de referência. Concordo plenamente com tudo o que foi escrito, não é o meu piloto de eleição, nem gosto muito dele embora lhe reconheça muito valor, para mim o maior de sempre foi e será McRae, no entanto nas provas em que Loeb participou este ano, dei por mim a torcer pelo “velhote” 😂😂😂, talvez por ser da minha faixa etária e por me estar a dar um enorme gozo ver um tipo de quase 50 anos a dar lições a alguns de 20 e tal… Comentário leia mais texto do link »