Jorge Viegas: “MotoGP regressa em 2022”

Jorge Viegas foi eleito presidente da Federação Internacional de Motociclismo, tornando-se no primeiro português a assumir a presidência da entidade máxima do motociclismo mundial. Em entrevista ao Autolook.pt, o “homem-forte” da FIM confidenciou a Pedro Roriz vários episódios, dando ainda conta de que o MotoGP está de regresso a solo português…

PEDRO RORIZ (auto.look2010@gmail.com)

Muitos anos depois de César Torres ter sido possível presidente da FIA, como sucessor do francês Jean-Marie Ballester, Jorge Viegas torna-se no primeiro português a presidir a uma estrutura federativa internacional, a Federação Internacional de Motociclismo (FIM), ponto alto de uma carreira que começou nas pistas (foi campeão nacional de 250 cc, em 1977), passou pelos jornais (“AutoSport”) e pela fundação de Federação Nacional de Motociclismo, de que foi o primeiro presidente, que em 1990 assegurou a filiação na FIM, depois de uns tempos de conflito com a Federação Portuguesa de Motociclismo.

Batido na primeira tentativa pelo italiano Vito Ippolito, que cumpriu três mandatos à frente da FIM, Jorge Viegas conseguiu à segunda concretizar a sua vontade e assumir o comando da FIM, ao receber 79 votos, dos 101 possíveis, depois de ser candidato único em consequência da renúncia do austríaco Wolfgang Srb, por motivos de saúde.

Uma vitória esperada por Jorge Viegas, que assume as razões por ter perdido na primeira tentativa.

 

– Eu sabia que não ia ser eleito, por não ter entrado em vários compadrios, que não vale a pena, agora, explicar em pormenor, e, por isso, achei que perdi mal e não fiquei convencido com essa derrota. E sempre pensei que podia fazer um bom trabalho como Presidente da FIM. Estive dois anos afastado, depois recandidatei-me a membro da Direcção e fui eleito, apesar de haver muita gente que não queria eu voltasse, como era o caso dos que estavam com a situação, um deles o Presidente, e quando tive o sinal, das Federações, para avançar, apesar de ter essa gente contra mim, comecei a fazer campanha para a presidência. Iniciei-a em 2016 e em 2018 fui eleito, por uma clara maioria.

– Qual o programa que vai levar por diante?

O meu programa visa, em primeiro lugar, voltar a dar importância às federações nacionais, em segundo, ajudar aquelas regiões do mundo em que o motociclismo está muito atrasado ou é quase inexistente, para o que temos apoios financeiros para essas regiões, aumentar a sustentabilidade do motociclismo, continuar a influenciar os legisladores no que diz respeito à mobilidade, criar condições para que haja cada vez mais mulheres a praticar motociclismo. Mas para mim há duas questões fundamentais: primeira quero que o motociclismo desportivo seja cada vez mais seguro o que mos permitirá ira para a segunda que é de permitir que quem quiser possa praticar motociclismo independentemente da sua condição económica. É por isso que estamos a investir muito nas academias em todo o mundo, de modo a que todos os jovens com talento, independentemente do sexo, possam praticar motociclismo. È fácil praticar futebol, andebol ou basquetebol, mas é mais difícil praticar motociclismo, por que implica o praticante ter o respectivo veículo e ter todo o apoio para poder fazê-lo. Isso só será possível se criarmos condições para que isso suceda. Uma terceira preocupação é torná-lo cada vez mais seguro.

– No capitulo da segurança, qual vai ser o caminho a seguir, para a aumentar?

Em primeiro lugar é preciso sublinhar que, nos últimos anos, a segurança do motociclismo melhorou muitíssimo, tanto do ponto de vista activo, como do ponto de vista passivo, o que se traduz em circuitos cada vez mais seguros e que acompanha o MotoGP, que é o mais popular, vê que há inúmeras quedas, mas, graças às condições de segurança que foram implantadas nos circuitos, com muito poucas consequências. Continua a ser um desporto de risco, de vez em quando há acidentes graves, mas todos eles sem serem consequências das infra-estruturas, mas a serem casos de azar. Um desses casos aconteceu na Bélgica, na corrida de F2, em que o acidente não foi consequência da pista, mas sim um imponderável, que continuará a acontecer, e para o qual nunca haverá medidas que o impeçam.

– Nos últimos tempos muito se tem falado do regresso do MotoGP a Portugal. Isso está para acontecer ou não?

– Essa é a pergunta inevitável. Neste momento tudo depende de uma coisa: dinheiro. Neste momento há um acordo, que vigorou em 2019 e vai vigorar em 2020 e 2021, entre o AIA e a Drona para que, caso haja alguma desistência, Portimão entre, já que é a primeira reserva. Por exemplo, se Silverstone não tivesse reasfaltado a pista, este ano, teria havido uma corrida no Algarve. Há, depois, um segundo acordo, para que Portimão entre no calendário nos três anos seguintes (2022, 2023 e 2024), porque em 2021 terminam vários contratos e por isso o acordo entra em vigor no ano seguinte. Entretanto, a Dorna já anunciou que não haverá cinco Grandes Prémios na Península Ibérica, a Espanha actualmente tem quatro. Isso significa que haverá uma rotação entre os cinco traçados e de cinco em cinco anos, um circuito fica fora do calendário. Isto acontecerá se os quatro circuitos espanhóis (Jerez, Barcelona, Aragon e Valência) mantiverem os contratos que têm, o que julgo que sucederá. Isto é o que está em cima da mesa. O que falta para a sua concretização? Que o governo português se chegue à frente e avalize o acordo que está feito.

– O calendário do próximo ano apresenta como novidade o GP da Finlândia. Que mais novidades são de esperar?

A Finlândia vai entrar em 2020, mas está pensado o Vietname, a Indonésia, o México, o Brasil também está a caminho de entrar, o que fará com que o futuro campeonato vá ter 22 Grandes Prémios, tal como a F1, sendo 12 na Europa e os restantes 10 fora. Em relação à Finlândia, estive lá na apresentação e nos primeiros testes, e achei o circuito engraçado, depois de o ter feito a guiar um automóvel…

– Mas dizem que é lento…

Confesso que quando o percorri também o achei muito lento, em particular a fase final, mas quando fomos ver os tempos, constatámos que é mais rápido que a Alemanha. É um circuito que não tem muitas rectas e que tem muitas curvas apertadas, mas não estava na configuração definitiva, pelo que vamos ter de aguardar, mas é um circuito muito engraçado.

– Como nasceu a paixão pelas motos?

Isso é uma pergunta sem resposta. Como muitos miúdos comprei uma moto aos 15 anos e tinha um grupo que à quinta-feira à noite ia para a serra de Sintra e foi assim que o “bichinho” apareceu, com alguns a competirem oficialmente, enquanto outros nunca sentiram necessidade de o fazer.

– E os jornais?

É uma história curiosa. Estava a estudar em Paris, na Sorbonne, porque acabei o liceu, a seguir ao 25 de Abril, as faculdades estavam fechadas e resolvi ir estudar para Paris, porque tinha lá uma irmã a viver e um dia na “Moto Journal”, revista de que ainda sou assinante, vejo o anúncio de uma excursão, organizada pela revista, a Daytona, para ver as “200 Milhas”. Eu não tinha dinheiro e como sei a pensar como é que conseguia arranjar maneira de ir. Vim a Lisboa, nas férias da Páscoa, fui ter com o João Vasco, que escrevia na “Automundo”, e disse-lhe: “estou a pensar ir a Daytona e, se vocês me derem algum dinheiro, faço-vos a reportagem”. Combinaram pagarem-me aos bocados e fui como jornalista nessa excursão e foi uma semana fantástica. Fiz a reportagem e pouco depois o Fernando Petronilho convidou-me para ir para o “AutoSport”, quando ele começou, e durante 12 anos fui jornalista, apesar de continuar a correr, mas corria, fazia a reportagem, tirava fotografias, foi muito divertido. E o engraçado, daquela ida a Daytona, é que hoje em dia contacto com algumas pessoas que vi correr nessa altura.

– Jorge Viegas teve também uma passagem pela Direcção do Autódromo do Estoril e nessa altura conseguiu trazer o MotoGP para Portugal. Como é que isso sucedeu?

Em 1997, eu queria trazer o MotoGP para Portugal e precisava de homologar o Autódromo. Entretanto, vi no jornal que a FPAK tinha pedido ao Governo para fazer obras no Autódromo, na altura em que a F1 tinha deixado de vir e o Autódromo tinha perdido a homologação. Nessa altura resolvi escrever ao Ministro da Economia, que na época era o Dr. Augusto Mateus, a pedir que juntassem as obras necessárias para o MotoGP também poder vir a Portugal. Mais tarde conheci-o no âmbito da minha vida profissional e disse-lhe que tinha sido eu que lhe tinha escrito por causa das obras no Autódromo. Ele pediu-me para ir ao Ministério falar com ele, o que fiz, e pediu-me que indicasse alguém para ficar à frente do Autódromo. Pedi-lhe uns dias para pensar, mas entretanto voltou a chamar-me e disse-me “gostava que fosse você”. E foi assim que assumi, durante três anos, a direcção da Sociedade Gestora do Autódromo, depois de ter negociado com a empresa uma situação de compatibilidade entre as duas situações. As obras correram muito bem e o reasfaltamento do Autódromo só aconteceu quase 20 anos depois. Como consequência aprovamos o traçado para o Grau A da FIA e da FIM, em 2000 fizemos o contrato com a Dorna e durante 12 anos tivemos o MotoGP em Portugal, que era o que eu queria fazer.

– Qual a razão que deixamos de ter o MotoGP?

A razão é simples: a Câmara de Cascais deixou de disponibilizar dinheiro para o GP. O GP era financiado com as contrapartidas do Casino do Estoril, que são postas à disposição da região todos os anos, e que devem ser propostas por uma Comissão e homologadas pelo Secretário de Estado do Turismo. Enquanto o António Capucho foi Presidente da Câmara aquilo era automático, havendo uma parta da verba do jogo que era para pagar à Dorna. Quando houve mudança de Presidente ele achou que aquele dinheiro era melhor empregue noutras coisas, como consequência deixou de dar dinheiro para o GP e deixou de haver GP em Portugal. E agora recuperá-lo é muito mais difícil.

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