Homenagem a Laura Salvo

 

 

PEDRO RORIZ

Hesitei muito em escrever este texto, mas decidi fazê-lo em homenagem à Laura Salvo e a todos quantos, ao longo dos tempos, morreram nas pistas ou nas estradas. Sei que vou ser politicamente incorrecto, mas, se aceito e compreendo a decisão de dar por concluído o “Vidreiro”, não teria, contudo, seguido esse caminho.

(auto.look2010@gmail.com)

Todos nós, quando vestimos o fato de competição e pomos o capacete na cabeça, sabemos e aceitamos os riscos que corremos, por uma paixão que nos leva querer ser os mais rápidos, seja quais sejam as circunstâncias, com a consciência que estamos muito perto da linha vermelha, que ninguém quer ultrapassar.

Quando isso sucede, devemos continuar em memória dos que foram e fazer o que mais gostavam e que, se pudessem ser interrogados, queriam que continuássemos a perseguir a nossa paixão.

Reconheço que os primeiros quilómetros iriam ser penosos, mas depressa essa sensação passava e havia que andar o mais depressa possível para superar a dor.

Quando, no Rali de Portugal de 1984, “voei” com o “Pêquêpê”, na Cabreira, lembro-me de ter pensado que íamos morrer, partindo do principio que o carro quando batesse no chão explodia, mas lembro-me de ter pensado também que «espero que não me chorem, porque morro a fazer o que gosto» e tenho a certeza que se tivéssemos morrido a prova não parava, como sucedeu, em 1972, quando morreu o José Arnaud.

E recorro a alguns exemplos, uns reais, outros ficcionados, mas que traduzem porque entendo que a prova devia ter continuado. Quando, no Rali de Portugal de 1986, Joaquim Santos teve um acidente, na Lagoa Azul, que provocou vários mortos, entre os espectadores, os pilotos das equipas oficiais reuniram-se no Estoril-Sol e pediram a Joaquim Moutinho que estivesse presente.

A sua decisão foi a de abandonar a prova, com o português a explicar que não o faria, porque isso significava deixar de correr, por serem aquelas as estradas onde competia todo o ano.

A explicação foi aceite e Joaquim Moutinho venceu a prova. Curiosamente, Cesare Fiorio, o patrão da Lancia, que nesse ano não esteve em Portugal, não deixou de dizer que se tivesse estado presente não permitiria que tal tivesse sucedido.

Para mim, que tive o privilégio de fazer vários “co-drive” ao lado dos melhores pilotos dessa época, a razão do abandono não foi o acidente, mas o medo que os pilotos tinham dos Grupo B, que seriam banidos depois do acidente fatal de Henri Toivonen e Sérgio Cresto na Córsega.

Estava habituado a vê-los curvar com suavidade e com um só movimento do volante e nesse ano, num “co-drive” com o Markku Alen, na Lagoa Azul, vi o finlandês a “lutar” com o S4 de uma maneira que nunca tinha presenciado e percebi que os carros além de terem muitos cavalos eram difíceis de guiar.

Nesse ano, o Rali de Portugal foi a terceira prova da temporada, depois de Monte Carlo e da Suécia, provas de características muito especiais, e a primeira onde puderam explorar ao máximo as potencialidades dos Grupos B.

Posso estar enganado, mas foi a sensação que continuo a ter. E recorro às declarações de Armindo Araújo, «a decisão da organização foi parar e acatámos em honra da Laura e se tivéssemos de continuar também o fazíamos em honra da Laura. Foi uma decisão da organização que respeito, como respeitava se fosse para continuar» e de Bruno Magalhães, «o rali foi terminado e nós estamos cá para acatar as decisões da organização, agora é seguir em frente e tentar ultrapassar isto o mais rapidamente possível».

E esse mais rapidamente é acelerar de seguida. É como quando se cai de um cavalo e a primeira coisa a fazer é montar de imediato.

Recordo, ainda, o filme “F1”, dos anos 80 do século passado, que traduzia o que se passava nas corridas, em que, após um acidente, a personagem representada por Yves Montand diz, e cito de memória, qualquer coisa como isto: «quando vejo um acidente, levo mais a fundo o acelerador, porque alguém deixou de o fazer».

One thought on “Homenagem a Laura Salvo

  • 17 Outubro, 2020 at 21:50
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