Hispano Suiza: da lenda à realidade

Entre 1904 e 1946, Hispano Suiza construiu mais de 12.000 automóveis de luxo. O seu emblema, a cegonha, foi escolhido em honra de uma esquadrilha francesa de aviação, equipada com motores da marca. Os actuais veículos, 100% eléctricos, conservam os valores que tornaram a Hispano Suiza numa lenda.

(auto.look2010@gmail.com)

A histórica marca Hispano Suiza ressurgiu em Março de 2019, quando apresentou, no Salão Automóvel de Genebra, uma autêntica obra de arte sobre rodas: o Carmen. O hiper-desportivo de luxo, “hyperlux”, que se tornou numa das grandes atracções da mostra suíça, partilha o ADN que levou a Hispano Suiza a tornar-se numa lenda, e em motivo de orgulho para a indústria espanhola.

A Hispano Suiza foi fundada a 14 de Junho de 1904 por Damián Mateu, com o apoio do engenheiro Marc Birkigt, um suíço que tinha chegado a Espanha para revolucionar a indústria do automóvel, e que tinha trabalhado nas duas antecessoras da Hispano Suiza: La Cuadra e J. Castro.

Desde os princípios do século, Birkigt havia trabalhado no desenvolvimento de veículos de 10 cv e 14 cv de potência, que serviram para formar as bases da empresa, e que foram entregues no final desse mesmo ano.

Apenas uns meses mais tarde, já em 1905, a Hispano Suiza criou o seu primeiro veículo, o Tipo blindado sistema Birkigt, equipado com um motor de quatro cilindros e 20 cv de potência, e que alcançava os 87 km/h de velocidade máxima.

Seguiu-se-lhe, um ano mais tarde, aquele que seria o primeiro automóvel com motor de seis cilindros construído em Espanha, um modelo com 75 cv de potência que chegou a completar o percurso Perpignan-Paris em 22 horas. Uma proeza que recebeu grande atenção dos meios de comunicação.

A Hispano Suiza começou a crescer, colocou em marcha uma fábrica em França, e vendeu a licença de fabrico a outros construtores, de países como o Reino Unido, Itália ou a antiga Checoslováquia, os quais contribuíram para a sua expansão no mundo. Pouco a pouco, começou a rivalizar com os grandes fabricantes da época, e a tornar-se em sinónimo de luxo e de alta sociedade.

Os seus automóveis captaram a atenção do rei Alfonso XIII, um apaixonado do mundo dos motores. O monarca conferiu uma notável visibilidade nacional e internacional à Hispano Suiza, e chegou a ter um papel importante dentro da marca. De tal forma, que chegou a ter um automóvel que foi baptizado em sua honra, o T45, ou o “Alfonso XIII”.

NASCE A CEGONHA DA HISPANO SUIZA

Durante a I Guerra Mundial, a Hispano Suiza centrou os seus esforços no fabrico de motores para a aviação, pondo em prática toda a experiência adquirida no sector automóvel. Foi um período importante para a empresa, com grandes benefícios.

Ainda hoje, o seu legado enquanto bem-sucedido construtor de motores aeronáuticos (chegou a produzir mais de 50 000 unidades) continua presente nos veículos da Hispano Suiza, mediante o mítico logótipo da marca: a cegonha. Este símbolo foi adoptado em honra do aviador de uma esquadrilha francesa que montava motores Hispano Suiza, e, juntamente com as bandeiras espanhola e suíça, tornou-se na imagem de marca do fabricante.

O primeiro modelo a ostentar a cegonha prateada foi o H6B, um revolucionário veículo com motor de 6 cilindros, que atingia os 150 km/h. Este automóvel conserva um importante lugar na história da marca, dado que, ao volante de um dos seus exemplares, André Dubonnet alcançou a vitória na Taça George Boillot, uma corrida de resistência realizada em Boulogne (França), que teve grande repercussão.

Também o próprio Alfonso XIII esteve ao volante de um H6 para competir na corrida da “Rampa das Perdizes”, nos arredores de Madrid. Este tipo de prova submeteu a um exigente teste os veículos de marca, que os mesmos superaram com distinção, tornando-se, assim, sinónimo de fiabilidade e altas prestações.

Dubonnet teria um papel importante nos anos seguintes da Hispano Suiza. Em 1932, foi apresentado no Salão Automóvel de Paris o Dubonnet Xenia, um veículo, baseado no H6B, que incorporava o sistema de suspensão independente inventado pelo próprio piloto e designer, e que substituía as molas de lâminas por molas helicoidais.

Em 1936, foi lançada uma segunda versão, mais aerodinâmica e espetacular, com portas deslizantes, para-brisas envolventes, linhas futuristas e um motor Hispano tipo 68 bis, com 12 cilindros e 250 cv de potência.

Após a Guerra Civil espanhola, a Hispano Suiza continuou a desenvolver motores e veículos cada vez mais potentes, com um design ainda mais selecto, como os T60 ou K36. A empresa reestruturou-se e foi dividida em três secções: uma dedicou-se à aviação e material militar; outra a automóveis, camiões e autocarros; e uma terceira centrou-se em maquinaria e ferramentas. Em 1953, após uma série de anos repletos de dificuldades no que respeita a resultados económicos, e depois da nacionalização da “La Hispano-Suiza, Fábrica de Automóviles, S.A”, termina o sonho (somente durante uns anos…) que um grupo de industriais, liderado por Damián Mateu e Mark Birkigt, iniciou no princípio do século.

Ao longo dos anos, a Hispano Suiza tornou-se em sinónimo de luxo e exclusividade, apenas ao alcance da classe alta. Os seus automóveis foram utilizados por aristocratas, intelectuais e os mais reputados artistas do mundo. Entre os clientes da mítica marca espanhola encontravam-se Alfonso XIII, Gustavo V da Suécia, Carlos II da Roménia, Luis II do Mónaco, Pablo Picasso, André Citroën, Coco Chanel, René Lacoste, Albert Einstein ele próprio, e, mais recentemente, Paul McCartney.

A utilização de automóveis Hispano Suiza esteve sempre intimamente ligada a clientes de alto poder aquisitivo, refinado gosto pelo luxo e uma incomensurável paixão pelo automóvel. Hoje em dia, os Hispano Suiza clássicos são conservados com supremo cuidado em museus e colecções privadas de todo o mundo.

NOVA ERA: A REINVENÇÃO DO LUXO SOBRE RODAS

A Hispano Suiza regressou actualizada aos novos tempos, liderada por Miguel Suqué Mateu, bisneto do fundador, que mantém vivo o legado e a lenda da marca. Pertencente ao Grupo Peralada, foi relançada em 2019, no Salão Automóvel de Genebra, com um veículo 100% eléctrico que assombrou o mundo: o Carmen.

Este exclusivo modelo com 1019 cv de potência foi integralmente concebido, desenvolvido e construído em Espanha. O seu exterior é inspirado no clássico Dubonnet Xenia, e partilha os valores que levaram a Hispano Suiza a tornar-se no exponente máximo do automóvel de luxo, com um design intemporal e exigente, uma manufactura meticulosa e uma escrupulosa atenção aos detalhes, tanto técnicos como de engenharia. A sua versão mais radical, o Carmen Boulogne, chegou no ano seguinte, em 2020. O Carmen Boulogne eleva a potência até aos 1114 cv e presta homenagem à vitória de Dubonnet em França.

A personalização é, também, parte importante do ADN da marca: não existem dois Hispano Suiza iguais. Todos os veículos podem ser configurados numa atitude de opções, tanto exteriores como interiores, com materiais de vanguarda e uma minuciosa atenção aos desejos do comprador de cada um dos 19 exemplares que serão construídos nesta limitada e exclusiva produção.

A competição foi sempre um dos principais atributos da Hispano Suiza. O Carmen é, na sua essência, um veículo com tecnologia de competição da Fórmula E, sendo-lhe as suas prestações, fiabilidade e potência garantidas por dispor de umas das melhores plataformas eléctricas do mundo.

O lema From Race to Road é a base do ADN actual. Deste modo, o Hispano Suiza Carmen Boulogne é uma evolução do Carmen centrada na competição, que espelha a herança da marca nas corridas até ao presente ano de 2021, em que se cumprem os 100 anos da vitória da Hispano Suiza em Boulogne.

A Hispano Suiza pretende continuar ligada à competição, o que levou a que, este ano, a marca participe no campeonato Extreme E com a sua própria equipa, a Hispano Suiza Xite Energy Team. Um todo-o-terreno 100% eléctrico, com mais de 500 cv de potência, tomará parte numa das competições mais exclusivas do mundo. Uma competição que tem três máximas: a sustentabilidade do planeta, a eletromobilidade e a igualdade de género.

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