Filipe Albuquerque está sem cotação em Belém

Piloto de Coimbra ganhou o Campeonato do Mundo de Resistência, o Campeonato da Europa de Resistência e as 24 Horas de Le Mans, competições que ajudaram a promover Portugal no Mundo. O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, felicitou Filipe Albuquerque pela vitória nas 24 Horas de Le Mans, mas não o “convocou” para comparecer no Palácio de Belém…

CARLOS SOUSA (carlos.sousa@autolook.pt)

Parafraseando o malogrado José Saramago, galardoado com o Nobel de Literatura de 1998 que também ganhou, em 1995, o Prémio Camões, o mais importante prémio literário da língua portuguesa, “o que as vitórias têm de mau é que não são definitivas. O que as derrotas têm de bom é que também não são definitivas”.

Vem isto a propósito de que nem sempre os grandes triunfos têm o mesmo reconhecimento de outros. Filipe Albuquerque foi o primeiro piloto do mundo a conquistar três títulos de índole mundial e europeu, além das míticas 24 Horas de Le Mans no mesmo ano.

Refira-se que, após sagrar-se Campeão do Mundo de Resistência LMP2 no Bahrein, Filipe Albuquerque foi homenageado pelo organizador do Campeonato com o “Prémio Excelência” pela forma ímpar como marcou presença na época 2019-2020 do Campeonato.

O Prémio foi-lhe entregue pelas mão de Wolfang Ulrich, antigo “patrão” de Filipe Albuquerque, com o piloto a referir que «foi uma grande homenagem e demonstra que o trabalho que fiz ao longo do ano foi reconhecido por todos». «Estou muito feliz. E receber este troféu das mãos do Dr. Ulrich tem um sabor ainda mais especial. Não há palavras para descrever todas estas sensações e sentimentos que vão dentro de mim. Só tenho uma palavra: obrigado», sublinhou o piloto português. Elucidativo.

Apesar do peso e da grandiosidade dos títulos conquistados com muito sangue, suor e lágrimas, Filipe Albuquerque, incompreensivelmente, nunca recebeu um convite do Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, para ser recebido no Palácio de Belém como já sucedeu com tantos outros, alguns dos quais até nem venceram absolutamente nada.

O triunfo nas 24 Horas de Le Mans valeu ao piloto de Coimbra, que fez equipa com os britânicos Phil Hanson e Paul di Resta, no Oreca da United Autosports, praticamente a conquista da Taça do Mundo de Resistência na classe LMP2, a qual viria a suceder mais tarde no Bahrein. Nessa altura, o Presidente da República felicitou, um dia depois do triunfo, o piloto português Filipe Albuquerque pela vitória nas 24 Horas de Le Mans na categoria LMP2.

«O Presidente Marcelo Rebelo de Sousa falou telefonicamente com o piloto português, a quem transmitiu uma mensagem de felicitações e grande reconhecimento, em nome de todos os portugueses», pela vitória na prova e pela conquista do Campeonato do Mundo de Resistência na classe LMP2, refere uma mensagem publicada no sítio oficial na internet da Presidência da República.

Marcelo Rebelo de Sousa destacou o grande momento vivido pelo desporto motorizado português, provando que, mesmo em contextos adversos e sem a habitual envolvência do público, são possíveis feitos extraordinários, grandes conquistas, prestigiar o desporto e o nome de Portugal», acrescenta o chefe de Estado.

Filipe Albuquerque confirmou que recebeu «uma chamada telefónica do Presidente da República a felicitar pelo sucesso em Le Mans» e, confrontado qual o motivo de não ter sido recebido e Belém, o piloto português limitou-se a defender Marcelo Rebelo de Sousa «pelos seus afazeres diários».

Pese embora a pacatez do experiente piloto, que nunca enveredou por situações de stress, agindo em conformidade com a sua atitude pacífica e refugiando-se longe de confusões, o certo é que estamos perante um cenário de critérios discriminados. Já o escritor argentino Jorge Luis Borges citou, um dia, que “há derrotas que têm mais dignidade do que a própria vitória”.

Recorde-se que Marcelo Rebelo de Sousa afirmou, no edifício do Antigo Museu Nacional dos Coches, em Lisboa, durante uma recepção à selecção portuguesa de futebol, que não tinha pedido «para trazerem a taça – eu disse isso há dois anos e muita gente ficou muito zangada comigo». «Não, eu peço uma coisa mais difícil: que sejam aquilo que são».

Porém, as grandes vitórias dos portugueses têm, e devem, ser reconhecidas, mas não apenas para os desportistas de Lisboa, Grande Lisboa e arredores. Apesar de ter nascido e crescido em Coimbra, cidade de que manifesta enorme orgulho de continuar a residir com a sua família, Filipe Albuquerque tem mérito pelo que conquistou em benefício de Portugal, deixando o exemplo de poder fazer tudo, com inteligência, racionalidade e trabalho, com o propósito de galvanizar novos valores para acrescentar grandeza à nação.

Os festejos das conquistas de Filipe Albuquerque em 2020 decorreram pelos quatro cantos do mundo, à semelhança do que aconteceu com a selecção nacional de futebol, em 2016, com o título do Campeonato Europeu. Naturalmente que existem grandes diferenças, a começar pelo destaque que foi dado na Comunicação Social, mas nada implica que todos sejam recebidos em Belém como o mesmo entusiasmo. Apesar de nunca se considerar um provinciano, bem como de outros em situação idêntica, Filipe Albuquerque tem o mesmo direito de receber das mãos do chefe e Estado a condecoração com a Ordem de Mérito. É justo!

2 thoughts on “Filipe Albuquerque está sem cotação em Belém

  • 15 Janeiro, 2021 at 18:48
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    “Os bons actos, ficam com quem os praticam”

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  • 15 Janeiro, 2021 at 22:21
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    Pois é, todos os animais são iguais. Só que uns são mais iguais que os outros…

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