Filipe Albuquerque é um piloto de outra galáxia

Piloto de Coimbra chegou hoje ao Aeroporto Humberto Delgado, em Lisboa, depois do triunfo nas 24 Horas de Daytona, prova inaugural do Campeonato Norte Americano de Resistência. Chegou feliz, evidenciou o terceiro Rolex conquistado com brilhantismo e vai ser recebido, brevemente, pelo Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa. Honra e mérito na vitória mais emotiva…

CARLOS SOUSA (carlos.sousa@autolook.pt)

Já começa a ser um habitué para o piloto de Coimbra que, à chegada a Portugal, ter à sua espera um batalhão de jornalistas, fotojornalistas e operadores de câmara, depois de uma prova além-fronteiras. Filipe Albuquerque, que em 2020 ter-se sagrado Campeão do Mundo de Resistência (WEC) LMP2, Campeão do European Le Mans Series (ELMS) e da estrondosa vitória nas 24 Horas de Le Mans, iniciou 2021 com a vitória nas 24 Horas de Daytona.

Um feito notável, até porque vencer duas provas de 24 Horas consecutivas não é para qualquer um. Na hora de evidenciar o triunfo em solo nacional, Filipe Albuquerque, que já lidera destacado o Campeonato Norte Americano de Resistência, continua muito igual ao que era quando não vencia nada, mas é um piloto de quilate superior.

Filipe Albuquerque, que partilhou a condução do Acura da Wayne Taylor Racing com Ricky Taylor, Helio Castroneves e Alexander Rossi, não se repeliu a qualquer pergunta e saciou todas as curiosidades dos jornalistas à chegada a Lisboa, num voo da companhia Lufthansa proveniente de Frankfurt.

Pertenceu-lhe o último turno e aos comandos do Acura número 10 e, juntamente com os companheiros de equipa, devolveu a confiança da Wayne Taylor Racing com um triunfo implacável.

«Foi incrível. Sabia que estava numa boa equipa e tinha todas as condições para ganhar. Mas não foi fácil. Para além de estar numa nova equipa, o carro também era novo para todos, ou seja, havia demasiados ingredientes que nos colocava fora da nossa zona de conforto, mas quando o trabalho é bem feito, tudo é possível, porque a força de vontade fez-nos trazer a taça para casa», começou por referir Filipe Albuquerque.

Essa mistura de ingredientes estiveram na base de uma prova imaculada, mas o piloto de Coimbra, não escondeu que a edição deste ano das 24 Horas de Daytona foi, muito provavelmente, a mais difícil da sua rica e já longa carreira.

EQUIPA FOI FANTÁSTICA

«Acredito que sim. Acho que foi a vontade, dedicação e experiência – além de considerar que estou no meu pico de forma –, assim como também estava muito rápido e a maximizar tudo o que tinha. Os meus colegas de equipa foram fantásticos, porque, claramente, não ganhei sozinho, embora tenha sido eu a cruzar a linha de meta, mas até lá foi todo um trabalho de equipa, a qual está de parabéns. Também foi a primeira vez que a Acura venceu em Daytona e, portanto, ter sido na parte final nas minhas mãos, foi simplesmente espectacular», referiu Filipe Albuquerque.

Depois de um ano de 2020 excelente, em que foi campeão do mundo, europeu e as míticas 24 Horas de Le Mans, o piloto conimbricense diz estar entregue ao seu espírito de triunfador, ou seja, vai voltar a estar envolvido em várias frentes para superar os feitos anteriores, mas também admite que não haverá facilidades como não as houve o ano passado.

«Naturalmente que é cada vez mais difícil superar o que fiz em 2020. Ganhei as 24 Horas de Le Mans e é muito difícil de vencer uma prova com estas características, porque há tantas coisas que podem correr mal. Estas são as segundas corridas de 24 Horas consecutivas que ganho, em que tudo tem corrido muito bem e, quando isso acontece, mais parece que somos absorvidos por uma bola de neve com os índices de confiança elevados, dedicação e ambição de querer ganhar cada vez mais. Estou a fazer bem as coisas mas, para ganhar, também é preciso ter uma boa dose de sorte. Naturalmente que estou satisfeito com o momento e não quero ficar por aqui, pois quero continuar a ganhar», sublinhou o piloto conimbricense.

Confrontado como é coabitar com a pressão das corridas, em que os pilotos adversários estão tão perto e ter a impressão de que se está em último, Filipe Albuquerque não “descolou” e apressou-se a responder com a mesma astúcia que o faz no asfalto das pistas.

ESTRATÉGIA DELINEADA E ASSERTIVA

«Esta é uma situação de trabalho de equipa. Esta corrida, em particular, foi muito difícil porque tínhamos uma estratégia delineada e começámos a discuti-la cerca de 12 horas antes do final, ao contrário do habitual, em que as decisões são discutidas mais nas derradeiras três horas. Por acaso fui eu a conseguir chegar à liderança, a sensivelmente a meio da corrida, e a nossa estratégia passou por manter-nos na frente, procurando bloquear os nossos adversários para que não fossem embora», referiu.

De acordo com Filipe Albuquerque, «conservar essa posição era muito importante e, portanto, tanto eu como os meus companheiros de equipa estivemos sempre muito concentrados, adoptando, ao mesmo tempo, um andamento rápido e consistente». «Estávamos sempre a falar uns com os outros. Por exemplo, antes do Ricky Taylor regressar à pista, já numa fase final da corrida, eu disse que, independentemente de quem acaba, esse piloto tem de estar muito fresco. Então, eu e o Taylor revezámo-nos e, além de estarmos a conhecer pela primeira vez o mesmo carro, ele acreditou que poderia conseguir chegar à vitória, embora também tenha sido a primeira corrida com este carro. Ele foi muito humilde e um excelente companheiro de equipa, dando-me o privilégio de acabar a corrida. Como a bola foi passada para o meu lado, claro que há sempre uma grande pressão, mas é isto que eu gosto de fazer. Obviamente que não é fácil, apenas temos de dar o nosso melhor para conquistar a vitória e trazer a taça para casa».

ATRÁS DO VOLANTE DESDE OS 7 ANOS

Filipe Albuquerque conferiu a sensação de estar atrás de um volante e estar tão perto de cruzar a linha de chegada e ser o primeiro a ver a bandeira de xadrez agitada: «Atrás do volante já o faço desde os 7 anos de idade, embora por brincadeira, como um hobby, mas a paixão e a vontade de estar ao volante, é exactamente a mesma, ou seja, sinto-me nas minhas sete quintas, de forma confortável, embora aumente a pressão. Por exemplo, quando o nosso mais directo opositor rebentou o pneu, que eu estava a ver pelos espelhos, todos na equipa ficaram contentes, gritando pela rádio “rebentou o pneu, rebentou o pneu”. Eu disse para mantermo-nos concentrados, porque, a qualquer momento, isso pode-nos acontecer a nós. Também era importante mantermos a calma porque ainda não tínhamos acabado a corrida e só ganhamos quando cruzamos a meta. As minhas palavras foram uma forma de levar alguma seriedade à equipa e esperar, até porque ainda tínhamos dois adversários a somente 5 segundos de diferença. Foi preciso manter a calma e só quando entrei na recta da meta e, em caso de termos um furo, o carro deslizava até à bandeira de xadrez, é que relaxei com a vitória. É uma sensação inacreditável».

Chegar, ver e vencer e de uma forma tão renhida, deixou Filipe Albuquerque repleto de orgulho, admitindo que para o futuro é bom para a sua carreira. No entanto, todos os anos, há sempre uma grade indecisão entre ganhar as 24 Horas de Daytona ou vencer o campeonato. Para o piloto de Coimbra, «ganhar sem dúvida alguma as 24 Horas de Daytona que é uma das maiores provas mundiais e já é um grande marco no ano». «Vencer Daytona pode ajudar para o campeonato mas, como são 10 provas no total, ainda haverá muita coisa para acontecer. Estou muito contente com esta vitória e vou continuar com equipa a querer mais vitórias. Por exemplo, nunca ganhei Sebring e gostaria de um dia ganhar, quiçá este ano. Em termos de campeonato, vamos ter de esperar lá mais para a frente, até porque, pela primeira vez na história, cinco carros terminaram na mesma volta do vencedor, o que demonstra bem a competitividade que vai ser este ano».

Relativamente às diferenças em uma prova de 24 Horas ou de 8 Horas, como as que vai enfrentar em Portimão, Filipe Albuquerque voltou a ser célere na resposta, á semelhança, aliás, de todas as outras.

“ESTOU MUITO FELIZ POR VOLTAR A PORTIMÃO”

«As 24 Horas são sempre as mais difíceis, ou seja, fazemos três horas, paramos e voltamos para mais três horas, voltamos a parar e regressar para mais três horas. É sempre uma situação difícil de gerir, dado que provoca alguma fadiga, diminui a concentração, além do desgaste do carro. São pormenores que podem afectar o rendimento da corrida, pelo que é muito difícil de ganhar. Por sua vez, as 8 Horas permitem ter a concentração mais activa», esclareceu o piloto, embaixador de Portugal, de Coimbra e Clube Automóvel do Centro.

Sobre as 8 Horas de Portimão, Filipe Albuquerque voltou a mostrar enorme satisfação por voltar a conduzir no Autódromo Internacional do Algarve: «Obviamente que estou muito feliz. Devido à pandemia da Covid-19, a primeira prova do Campeonato do Mundo de Resistência transferiu-se dos Estados Unidos para Portimão. Não estava planeado correr em Portugal este ano, mas há males que vêem por bem. Trata-se de um campeonato de que sou campeão do mundo em título e que vou tentar bisar e, ganhar em Portugal, seria espectacular».

Recorde-se que a abertura do Mundial de Resistência (WEC) está agendada para o Autódromo Internacional do Algarve, com as 8 Horas de Portimão, de 2 a 4 de Abril substituindo as 1000 Milhas de Sebring, previstas para Março.

FILIPE ALBUQUERQUE

RECEBIDO NO PALÁCIO DE BELÉM

O piloto de Coimbra vai ser recebido em Belém pelo Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa. O conimbricense Filipe Albuquerque foi contactado pela presidência quando ainda se encontrava em Daytona, restando agora acertar o dia e a hora.

Considerado um piloto extraordinário, quer ao nível de afectos, como no campo desportivo, Filipe Albuquerque vai, com toda a certeza, ter um encontro de afeições. Marcelo Rebelo de Sousa receberá o Campeão do Mundo de Resistência LMP2, Campeão do European Le Mans Series e das estrondosas vitórias nas 24 Horas de Le Mans e 24 Horas de Daytona no Palácio de Belém, a fim de agraciou o piloto português com o grau de Comendador da Ordem do Mérito. Filipe Albuquerque está, como não poderia deixar de ser, com a cotação em alta.

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