Filipe Albuquerque com o mundo a seus pés

Piloto de Coimbra e também embaixador de Portugal, foi Campeão Mundial de Resistência em LMP2, com quatro vitórias, Campeão Europeu de Resistência à geral com três triunfos, e venceu, também, as 24 Horas de Le Mans na sua classe, sendo quinto à geral. Um ano memorável para Filipe Albuquerque.

CARLOS SOUSA (carlos.sousa@autolook.pt)

A tradição ainda é o que é e Paris foi o local combinado para novo encontro com Filipe Albuquerque, o único piloto do mundo a conquistar, num só ano, o Mundial FIA WEC, o Europe ELMS, as 24 Le Mans e Excellence Award. Estamos perante um “fenómeno” global, com o piloto de Coimbra a concretizar uma campanha sem precedentes e com o mundo a seus pés, até porque os números não enganam e são como o algodão: em 12 corridas, Filipe Albuquerque venceu seis, garantiu o pódio por nove vezes e registou quatro “pole position”.

Paris, não a capital francesa, mas o arejado café na Rua Machado Castro, serviu de “quartel-general” para abordar os mais recentes sucessos e traçar a temporada que se avizinha, com mais uma edição das 24 Horas de Daytona. Uma prova mítica que Filipe de Albuquerque e João Barbosa venceram a 28 de Janeiro em 2018. Um triunfo foi ainda partilhado pelo brasileiro Christian Fittipaldi, terceiro piloto do Mustang Cadillac.

Naquele ano não muito distante, o trio da Mustang Sampling Racing bateu um novo recorde ao completarem 808 voltas ao circuito, um registo melhor do que as 762 que estavam registadas nos anais da prova. Recorde-se que, em 2017, o piloto de Coimbra terminou as 24 Horas de Daytona no lugar intermédio o pódio, numa corrida bastante controversa, perdendo a liderança a 5 minutos do final.

Aos 35 anos de idade e com uma lista infindável de triunfos e títulos, os mais recentes de âmbito Mundial, Europeu e 24 Horas de Le Mans, Filipe Albuquerque mantém a sua atitude e ninguém, mas mesmo ninguém, que negue que é um piloto extraordinário, educado, com princípios e um dos melhores de resistência da actualidade.

Confrontado como ainda analisa a campanha de 2020, o piloto conimbricense disse que a época «foi extraordinária», confessando que já viveu excelentes temporadas, como «em 2006 quando conquistei o Campeonato da Europa e do Norte da Europa de Fórmula Renault, bem como, quatro anos depois, quando ganhei a Corrida dos Campeões em que tive de enfrentar “monstros sagrados” do automobilismo, nomeadamente o alemão Michael Schumacher, o francês Sébastien Loeb e o alemão Sebastian Vettel».

«Este ano foi, sem qualquer margem para dúvidas, o melhor no cômputo desportivo, até porque ninguém, até aos dias de hoje, conseguiu vencer as emblemáticas 24 Horas de Le Mans e sagrar-se Campeão do Mundo de Resistência LMP2 e European Le Mans Series e, tudo isto, no mesmo ano», referiu Filipe Albuquerque.

Depois destes títulos incríveis no mesmo ano e que muito dignifica o país, o piloto de Coimbra mudou-se de “malas e bagagens” para a Wayne Taylor Racing. Para trás deixa a Action Express Racing com o objectivo, claro e inequívoco, «de ser campeão americano de resistência», uma prova que arranca com as míticas Rolex 24 Horas de Daytona, nos próximos dias 30 a 31 de Janeiro.

FILIPE ALBUQUERQUE DE “MALAS E BAGAGENS” NA WAYNE TAYLOR RACING

O experiente piloto português, embaixador de Coimbra e Clube Automóvel do Centro, vai alinhar na competição com os companheiros de equipa Ricky Taylor, Alexander Rossi e Helio Castroneves. Sobre a sua nova realidade no IMSA Sportscar, o programa norte-americano prestes a realizar-se em paralelo com a defesa do título mundial de LMP2, Filipe Albuquerque esmiuçou as razões da sua mudança para a Wayne Taylor Racing e a forma como chegou ao projecto para conduzir o Acura ARX-05.

«Foi muito simples. Fui contactado pelo Wayne Taylor que perguntou se já tinha planos para 2021, dando a conhecer o projecto que iria ter com o Acura e com o Rick Taylor. Na altura era tudo muito embrionário e ainda não estava nada concretizado, mas deixou-me claramente interessado. Ele também precisava de saber se estava interessado para começar a juntar a equipa. Depois, quando as coisas começaram a ficar mais sérias fomos avançando», resumiu o piloto de Coimbra.

Uma das maiores diferenças que Filipe Albuquerque vai encontrar será o Acura: «O carro vai ser muito diferente. Ainda não andei nele mas já comecei a perceber que é muito diferente do Cadillac. Uma coisa que invejei e no Acura é que a sua velocidade de ponta sempre foi muito boa. O Cadillac sempre teve uma excelente tracção. Se calhar vou perder desse lado. Mas, ao fim e ao cabo, acaba por ser o “Balance of Performance” a ditar muito o que o carro é. Não adianta muito termos um super-carro se depois vamos ser “castrados” pelo BoP. Mas é claro que estou sempre a olhar para os pontos positivos e para as dificuldades que tinha de ultrapassar um Acura do que os pontos negativos. Se calhar, ao fim de um tempo, vou começar a lamentar um pouco das coisas menos boas do carro e as boas do Cadillac».

OFERTA IRRECUSÁVEL

O piloto de Coimbra considera que o convite feito pela Wayne Taylor Racing teve muito mais a ver com o que tem feito no IMSA do que com os seus títulos mundiais e europeu na endurance:

«O Wayne Taylor contratou-me muito pelo nome que eu tenho no “paddock”. Não estava contente com o lugar de terceiro na Action Express. Se estivesse a tempo inteiro já sabia que eu iria continuar na Action Express Racing, mas sabendo que queria um lugar a tempo inteiro – que nunca escondi isso a ninguém – foi inteligente e propôs-me um lugar que a Action Express não estava a propor. Por isso foi lógico para mim sair e aceitar outro lugar. Por isso acho que me contratou pelo conjunto de situações. É claro que ganhar campeonatos do mundo ajuda, porque apareço mais nas notícias e vêem o meu nome», sublinhou Filipe Albuquerque.

O piloto de Coimbra diz que da Action Express Racing «levo, obviamente, boas memórias». «Estava com a equipa desde 2016. São grandes memórias. A melhor, sem dúvida, foi ganhar as 24 Horas de Daytona, mas ganhar duas vezes e ganhar Long Beach – que é o Grande Prémio do Mónaco dos Estados Unidos – são grandes memórias».

«Atenção, que terminamos bem a relação», faz questão de salientar o piloto de Coimbra, referindo que «continuamos amigos». «Ainda hoje falo com o engenheiro. Uma coisa não impede a outra. Eles desejaram-me a maior das sortes, porque sabiam que não me podiam oferecer o que eu queria. Lamentaram muito ver-me partir para outra equipa e até pediram desculpa por não terem sido capazes de me oferecer melhor, mas que compreendem perfeitamente. E por isso, amigos como dantes. E nunca se sabe o dia de amanhã», revelou.

Filipe Albuquerque está convencido que vai ser possível conciliar competições dos dois lados do Atlântico: «Nos últimos anos tenho sido, talvez o único piloto, a fazer os três campeonatos. Cheguei mesmo a fazer o Mundial, o ELMS e o IMSA. Desde que não haja provas coincidentes, que me impeçam de competir, dá para fazer. Vejo isso como normal, principalmente este ano. O Acura é um chassis Oreca, como o carro da United também o é. Isso vai facilitar muito o meu trabalho. Vai-me até trazer mais ritmo de corrida», observa o piloto português.

CORRER AO LADO DE EX-ADVERSÁRIOS

Estar na mesma equipa que Ricky Taylor, um adversário de muitas batalhas num passado recente, pode parecer estranho. Mas o piloto conimbricense vê a coisa de uma forma natural e até elogia o piloto norte-americano: «Vejo-o como um grande piloto, campeão do IMSA. Também já ganhou Daytona, depois de termos um incidente. Mas isso só nos aproximou, ganhar mais respeito um pelo outro, porque após a corrida quis falar comigo e explicar-se, como é que aquilo tinha surgido», sublinhou Filipe Albuquerque.

«A verdade é que, passadas algumas semanas após a corrida e analisando bem o incidente, nunca me vi numa situação de punir o Ricky Taylor, pois a pedir justificações seria ao director de prova por não aplicar uma penalização. Coisa que ele também achava que iria receber, depois de ter tentado aquela ultrapassagem e as coisas não terem corrido tão bem. Acabou por não suceder e ele acabou por ganhar a corrida. Claro que ainda hoje me lembro e vou lembra-me para sempre. Nós os dois concordamos na forma como vemos as corridas e seguimos em frente. A partir daí só devemos ter mais respeito um pelo outro», argumentou.

O piloto de Coimbra também não esquece os outros dois companheiros que vão ajudar a equipa em corridas mais extensas como as Rolex 24 Horas de Daytona, 12 Horas de Sebring ou Petit Le Mans.

«Tanto o Hélio Castroneves como o Alexander Rossi são dois pilotos que conhecem bem o carro e o campeonato. Acho que, mesmo assim, eu e o Ricky Taylor temos mais experiência em provas de resistência porque, nos últimos anos, temo-nos dedicado em muito a essa variante. O Hélio só nos últimos três anos é que esteve ligado à endurance e o Rossi tem vindo a fazer as corridas de Daytona, mas têm menos experiência do que nós os dois. No entanto, entendo que são grandes pilotos para nos ajudar nas corridas longas, além de serem excelentes pilotos com provas dadas. As Indy500 são uma corrida mítica também», observou Filipe Albuquerque.

AS DIFERENÇAS ABISMAIS ENTRE O IMSA E WEC

De acordo com Filipe Albuquerque, «há coisas que distinguem o IMSA do WEC, nomeadamente não ser tão sancionatório, não havendo uma regra a “preto e branco” de como as coisas devem acontecer». O piloto de Coimbra dá vários exemplos: «Na entrada das boxes temos uma linha amarela que podemos passar com duas rodas, mas vejo constantemente pilotos a cruzar essa linha com as quatro rodas e não haver penalização nenhuma. No WEC, mal tocamos numa linha branca, Eduardo Freitas (director de prova), manda-nos para a boxe. E aí as regras são muito “preto no branco”. É engraçado, porque a minha opinião é que “nem tanto ao mar, nem tanto à terra”. Na última prova do Campeonato do Mundo falei com Eduardo Freitas, com a finalidade de melhorar o desporto e não de apontar o dedo, porque dei um toque num adversário que estava a entrar na boxe, porque ele abrandou demasiado para a velocidade a que eu vinha e, se calhar, fui optimista, mas não prejudiquei a corrida do outro, quando muito prejudiquei a minha porque fiquei com a “asa” da frente danificada. Aplicar-me uma penalização de cinco segundos achei ridículo. E ele concordou. Porque como não prejudiquei o outro, deviam deixar-nos correr sem castigos».

«O campeonato do Mundo é muito cheio de regras, de protocolos, de livros e de leis. Ao IMSA falta um bocadinho de leis e aplicá-las. Eu estou um bocadinho no meio dos dois mas, de uma maneira geral, o campeonato americano é muito mais desafiante com as pistas que tem. Não há cá “track limits” (limites da pista), porque eles são a relva ou saltos e gravilha e é logo o muro. E no Campeonato do Mundo, com estas provas todas em pistas de Fórmula 1, não penaliza erros porque toda a gente tem 300 ou 400 metros de asfalto nas escapatórias. Mas é o que é», finalizou Filipe Albuquerque.

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