Faleceu Jean Graton, “pai” de Michel Vaillant

O autor francês de banda desenhada Jean Graton, criador da personagem Michel Vaillant, morreu hoje aos 98 anos em Bruxelas, revelou a editora Dupuis.

(auto.look2010@gmail.com)

A banda desenhada franco-belga perdeu hoje aquele que era, possivelmente, o último dos grandes nomes da sua idade de ouro. Natural de Nantes, França, onde nasceu a 10 de Agosto de 1923, Jean Graton foi o criador de uma das mais populares personagens realistas de BD: Michel Vaillant, o piloto de Fórmula 1.

Até lá chegar, percorreu um longo percurso, precocemente iniciado com apenas oito anos, quando publicou o primeiro desenho no jornal belga “Le Soir”. Chegaria à banda desenhada aos 19 anos, ilustrando algumas das “Belles histoires de l’oncle Paul”, na revista “Spirou”.

No ano seguinte, 1953, prosseguiu a carreira na revista “Tintin” com “A primeira corrida”, publicada no mesmo ano, em português, no “Cavaleiro Andante” n.º 123. Era a primeira de muitas narrativas curtas de temática desportiva, que já prenunciavam o tom da série da sua vida. “Michel Vaillant” estreou-se em 1957, em quatro histórias de quatro páginas cada, uma das quais, “A 24.ª hora”, foi publicada em português no “Falcão” n.º 24 (1.ª série).

A opção pelo mundo da competição automóvel, segundo Jean Graton escreveu no primeiro volume integral da série, surgiu porque «gostava de desenhar automóveis e conhecia bem o mundo das corridas». Por isso, «o meu herói foi um piloto». “O grande desafio” (1958, “Cavaleiro Andante” n.º 357) seria a primeira de 70 histórias longas, que levariam o simpático e leal piloto francês, filho de um construtor automóvel, não só a competir na Fórmula 1, mas também em motas, stock cars, ralis e karts, um pouco por todo o Mundo.

Graças a Michel Vaillant, Graton tornou-se presença frequente no meio automobilístico, não só para recolher elementos que reforçassem o tom realista das suas narrativas, mas também para incluir nelas os pilotos de carne e osso. Ao longo de quase 50 anos, a série aos quadradinhos foi um reflexo da realidade desportiva, com o herói de papel a manter-se jovem e a acompanhar não só a evolução dos bólides como gerações de pilotos com quem confraternizou e competiu: Graham Hill, Jackie Stewart, Jacky Ickx, Niki Lauda, Ayrton Senna, Michael Schumacher ou o português Pedro Lamy (em “A prova”, 2003). Duas das suas aventuras decorrem no nosso país: “Rali em Portugal” (1969) e “O homem de Lisboa” (1984), esta última, uma das poucas a fugir ao tom competitivo, nela substituído por um enredo de base policial.

A paixão pelo automobilismo e pela competição aliada à partilha do espaço com pilotos reais, ao bom carácter de Michel Vaillant e ao rigor no desenho das viaturas, fizeram desta série uma das mais populares ao longo de várias gerações, apesar da rigidez dos rostos dos intervenientes e do uso e abuso de onomatopeias nas corridas.

Juntamente com Michel, a série distinguiu-se pela importância da componente familiar – o herói começa como adolescente e acaba por casar e ter filhos – bem como pela galeria de personagens secundárias, onde se destacam Steve Watson, primeiro rival, depois companheiro de equipa do protagonista; Julie Woods, proveniente de outra série criada por Jean Graton em 1976; ou rivais pouco honestos como os pilotos da equipa Texas Driver.

A maior parte dos álbuns e histórias curtas de Michel Vaillant foram editados no nosso país, onde o piloto chegou a ser rebaptizado como Miguel Gusmão, em revistas como “Cavaleiro Andante”, “Zorro”, “Tintin”, “Mundo de Aventuras” ou “Jornal da BD”, ou em álbum pela Íbis, Bertrand, Meribérica, AutoSport ou ASA.

Na sua carreira de argumentista e desenhador, Jean Graton, com o apoio do estúdio que entretanto criara, daria igualmente origem a uma série de dossiês sobre personalidades famosas, como James Dean, Steve McQueen, Ickx ou Senna.

“24 horas sob pressão”, em 2007, foi o último álbum da série regular em que Graton participou, tendo de seguida entregue os destinos da série ao filho, Philippe. Este, a partir de 2012, deu-lhe um formato de arcos curtos de quatro álbuns, com um tom mais próximo das séries televisivas, com os dramas pessoais a sobreporem-se ao mundo das corridas. A acção do tomo inaugural desta nova fase, “Em nome do filho”, decorre parcialmente no circuito de Portimão.

“Duelos”, o nono álbum desta nova vida de Michel Vaillant, que foi lançado esta semana em França, esteve anunciado pelas Edições ASA para este mês de Janeiro, mas foi adiado devido ao confinamento que estamos a viver.

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