Clube Automóvel do Centro com marca de prestígio

Agremiação sediada em Coimbra assinalou o 53.º aniversário com uma sessão que abordou o estado do desporto automóvel em Portugal e o seu posicionamento nesse cenário. Jorge Conde reconhece dificuldades, mas o clube tem futuro, assim os jovens o queiram…

(auto.look2010@gmail.com)

Jorge Conde, Luís Santos e Armando Francisco Fidalgo

O Clube Automóvel do Centro (CAC) está de parabéns. Festejar mais de meio século não está ao alcance de muitas agremiações, mas o CAC assinalou esta quinta-feira 53 anos que juntou algumas dezenas de sócios, simpatizantes e amigos. Coube a Luís Santos, presidente da colectividade, agradecer a presença dos associados e convidados, numa cerimónia marcada por uma “viagem” ao passado, conduzida por Armando Francisco Fidalgo, antigo presidente do CAC.

O actual dirigente da Federação Portuguesa de Automobilismo e Karting (FPAK) “vagueou” por caminhos sinuosos e profícuos. Um verdadeiro “contador de histórias” que cativou o interesse generalizado da plateia. Foram minutos atrás de minutos a engrenar mudanças de pujança, mas também a colocar a marcha atrás em períodos de crise acentuada. E foram muitos. Mas tudo foi levado a bom porto, independentemente das dificuldades.

Jorge Conde, Luís Santos e Armando Francisco Fidalgo

Entre “aventuras e peripécias”, Armando Francisco Fidalgo destacou «dirigentes que empunharam a sua raça em prol do Clube Automóvel do Centro» até aos dias de hoje, mas pelo caminho, por curvas e contracurvas, «houve necessidade de tratar as feridas e enterrar os mortos».

Na menção pela história de um clube com 53 anos, o antigo presidente, antes de culminar a exposição pela viagem aos primeiros anos da colectividade, destacou «a importância de criar um museu nas magníficas instalações do clube, detentor de um enorme património com muita história».

A palestra intitulada “O papel do CAC no desporto automóvel português: perspectivas para a próxima década”, era aguardada com enorme expectativa. A conferência foi proferida pelo ex-timoneiro do CAC e actual presidente do Instituto Politécnico de Coimbra (IPC), Jorge Conde.

Armando Fidalgo, Jorge Conde e Luís Santos

O Clube Automóvel do Centro, marca importante com mais de meio século de actividade que estende os seus “tentáculos” em Coimbra e região Centro com o selo de qualidade de excelência, deu início a um período decisivo da sua vida.

DESPORTO AUTOMÓVEL NÃO TEM

SABIDO FIRMAR-SE EM PORTUGAL

Para Jorge Conde, «o desporto automóvel português não tem sabido afirmar-se», em que todos os desportos, «mais uns que outros, mais o automobilismo que a maioria, são produtos turísticos de grande relevância económica».

«Primeiro porque sendo um desporto caro, ele movimenta entre os praticantes, gente com disponibilidade financeira para o fazer. Segundo porque as massas de adeptos que movimenta são sempre grandes. Terceiro porque um evento desportivo demora no mínimo um dia e isso obriga a gastos nos destinos, onde as provas acontecem, como alimentação, combustíveis e muitas vezes alojamento e recordações», enumerou o antigo presidente do CAC.

Apesar disso, «podemos perceber, que com excepção de uma meia-dúzia de eventos de cariz internacional, como as provas que integram os campeonatos do Mundo ou da Europa, ou que o já fizeram e hoje assumem no contexto regional relevante importância económica, as outras realizações passam despercebidas à comunicação social e aos não aficionados deste desporto», exemplificando as «realizações que assumem dimensão jornalística para lá do universo dos aficionados, são o Rali de Portugal ou o Rali dos Açores», acrescentou Jorge Conde na intervenção.

 

FPAK TEM INVESTIDO MUITO POUCO M ALGUMAS DAS SUAS MISSÕES

«Analisando o estado da arte verificamos que, por exemplo no calendário do primeiro semestre deste ano, estão inscritas 104 provas, concentradas em 62 dias de calendário. Não contabilizamos aqui as provas menos legais que sabemos continuarem a existir. Esta realidade de excesso de realizações, num mercado de aficionados que não tem capacidade para se dividir, tem vindo a desvalorizar o mundo automóvel, fazendo parecer que há menos adeptos e que as bancadas ou as estradas estão vazias de público», sublinhou.

«Depois, porque nem a comunicação social especializada, nem a generalista, local ou nacional, dispõem de recursos que alimentem a tão necessária promoção. Ora, tal só é possível, porque a fasquia para se ser organizador está num patamar que, permite a existência de 91 clubes e 11 associações federadas na FPAK», sustentou Jorge Conde.

Para o presidente do IPC, «é manifestamente um exagero para a dimensão geográfica do país e para a dimensão económica dos negócios associados aos automóveis». «Também a FPAK, tem investido muito pouco em algumas das suas missões, como as referidas no art.º 4 dos seus estatutos, nomeadamente: promover, regular e dirigir a nível nacional o automobilismo e o karting nas suas diversas disciplinas, ou estimular e apoiar o funcionamento dos clubes e demais agentes desportivos».

IMPERATIVO PROMOVER O APARECIMENTO DE ESTRUTURAS FORTES

«Outro dado importante é o elevado envelhecimento do sistema, com uma elevada ausência de renovação dos quadros humanos e mesmo dos espaços físicos onde tal acontece. Por outras palavras, as pessoas não variam muito, com os clubes ou a própria federação a rodar entre a geração actual e a anterior, faltando aqui a geração seguinte, aquela que tendo menos de 30 anos, entra no sistema para o renovar», asseverou o antigo presidente do clube aniversariante.

«Importa realçar a profissionalização da actividade, com clubes que mais não são do que a fachada de empresas, que estando por trás exercem uma actividade económica dissimulada e lucrativa. Importa perceber que sendo os clubes, organizações sem fins lucrativos, aqueles que não optaram ainda por um registo empresarial, passam mais dificuldades, quer para colocar de pé as suas realizações, quer para renovar os seus quadros», avançou Jorge Conde.

Em resumo, «esta introdução visa alertar-nos que sendo o desporto automóvel, um mundo de recursos limitados, pelo seu elevado preço e pela sua complexidade, deveríamos promover o aparecimento de estruturas fortes, nomeadamente tornando mais robustas as equipas dos clubes e devolvendo o poder federativo aos clubes, que na realidade nada mandam no desporto do qual são os promotores», aferiu.

CAC É O MAIS ANTIGO CLUBE NÃO PROFISSIONAL EM ACTIVIDADE

Depois da análise ao momento desportivo automóvel no nosso país, Jorge Conde voltou-se para o interior do Clube Automóvel do Centro, reforçando a ideia de que «temos na história actual um lugar de que nos devemos orgulhar». «Somos o 5.º clube mais antigo em actividade. Nos quatro mais velhos que nós, está um clube sem actividade no presente (ou perto disso) e os outros três clubes são o Automóvel Club de Portugal (ACP) o Clube Sports Madeira e o Grupo Desportivo e Comercial, dos Açores».

«Um goza do facto de ser o “clube nacional”, ex-dono do poder que agora cabe à FPAK, e de ser uma grande empresa, que opera principalmente nos ramos do automóvel e do turismo. Os outros dois representam as duas regiões autónomas de Portugal, com fundos para a realização das suas organizações de que nenhum outro clube consegue sequer aproximar-se. Dito isto, conseguimos ao cabo dos 53 anos que levamos de história, ser o mais antigo clube, não profissional em actividade», vincou.

Outro dado importante, é o facto «de quase sempre o termos feito como um clube regional, que soube respeitar eticamente as suas fronteiras e sem agressão aos que estavam no terreno, respeitando inclusive os que foram aparecendo». «Diria pois, com a satisfação de ter feito parte da história dos últimos 37 anos do CAC, que nos temos portado como verdadeiros cavalheiros, num desporto de cavalheiros».

«O CAC, como o seu próprio nome indica, é o clube no centro de Portugal. Estivesse o país regionalizado e poderíamos ter outra dimensão e importância. Ainda assim, somos suficientemente grandes no que fazemos. Conseguimos aguentar as agressões que os lobbies do poder, em determinados momentos nos fizeram e permitam-me que refira a título de exemplo o terem usado um mecanismo ilegal, imoral e mesmo mafioso, para nos retirarem a prova do campeonato nacional em 2002», confidenciou Jorge Conde.

Apesar de tudo isto, «podemos dizer que somos um clube, com passado, com presente e que por certo terá futuro», afirmou, exemplificando: «Veja-se que, do ponto de vista de estrutura, a nossa sede e o nosso equipamento, que nos permitem dignidade e autonomia e nos garantem condições de trabalho para o futuro. Provavelmente se nos dedicássemos a provas em circuito, até já teríamos outro património, dispensável para a nossa actividade do passado e do presente, que são maioritariamente os ralis».

“SOMOS O CLUBE DO CENTRO DE PORTUGAL E O CLUBE DE COIMBRA”

Jorge Conde não se “encolheu” nas “curvas” e acelerou, de forma célere, para uma questão sempre preocupante, até pelo posicionamento geográfico luxuoso em que se encontra o CAC. Nesta abordagem, o antigo presidente do clube aniversariante foi conciso no “choque” de atitudes.

«Lamentamos tantas vezes a nossa cidade madrasta, que raramente nos tratou como filhos, mas a verdade é que também há muitos anos não temos um produto de primeira linha para lhe oferecer. Estou certo que a inversão de política e o aumento de apoio com que Coimbra nos vem granjeando nos últimos quatro mandatos autárquicos, é um sinal de que podemos procurar oferecer a Coimbra um produto de primeira linha que encaixe na sua dinâmica territorial», destacou.

Jorge Conde não tem dúvidas de que «Coimbra pode e o Clube Automóvel do Centro sabe fazê-lo. Já estamos pois a falar de futuro e o CAC deve cimentar a sua ligação local, não só ao poder autárquico, mas também ao poder económico da cidade». «Pela nossa dimensão importa mantermos a nossa inserção territorial regional. Não nos esqueçamos que a catedral dos ralis, faz parte do nosso território. Serras como a Lousã, o Açor, o Caramulo e mesmo parte da estrela, estão naquele que foi e ainda é o território do CAC».

«Temos pois de encontrar forma de mantermos essa ligação e esse ascendente sobre um território, que se hoje tem nome no desporto automóvel o deve em muito ao CAC. Recordaria, a título de exemplo, nomes já por nós usados nas nossas organizações e que são cidades e vilas com que baptizamos provas: Figueira da Foz, Miranda do Corvo/Penela, Lousã, Vila Nova de Poiares, Góis, Pampilhosa da Serra, Arganil, Oliveira do Hospital, Tábua, Nelas, Mangualde, Mortágua, Cantanhede, Tomar, Coimbra», replicou o antigo dirigente desportivo.

Jorge Conde não tem dúvidas: «Na realidade somos mesmo o clube do centro de Portugal. Somos um dos mais antigos clubes automóveis, mas também um dos mais antigos clubes, que militam na primeira liga da sua modalidade. Diria pois, que o futuro passa por mantermos acesa, esta ligação global ao território e criarmos produtos de excelência que mantenham o território com vontade de se ligar a nós».

FPAK MUDA À VELOCIDADE DE UM PORTA-AVIÕES…

Falando ainda do futuro imediato, Jorge Conde vincou as suas «dúvidas sobre o desporto automóvel nacional». «A FPAK, muda à velocidade de um porta-aviões e o mundo e o país, estão a mudar à velocidade de uma fragata. Tenho sérias dúvidas, que as mudanças já operadas na FPAK sejam suficientes para robustecer o desporto automóvel coma actividade económica relevante e tenho sérias dúvidas que os bastidores, onde vivem aqueles que dependem socialmente e muitas vezes economicamente dos automóveis, queiram aceitar as mudanças necessárias à manutenção e desenvolvimento do sector».

«A FPAK», ainda segundo Jorge Conde, «precisa de dar aos clubes garantias de médio prazo, precisa de vir ao terreno promover as realizações, precisa de se credibilizar perante as entidades que pagam, sejam elas as empresas ou as autarquias, precisa de aligeirar a estrutura do seu funcionamento e para isso tem de aligeirar o calendário, para libertar verba que permita comprar tempo de antena e folhas de jornais que promovendo o automóvel, traga mais e melhores sponsors para o terreno».

«O CAC, como todos os outros clubes de primeira linha e na minha opinião só estes, precisam de se organizar, obrigando à devolução do poder que deve caber aos clubes, por forma a que a gestão federativa seja encaminhada no interesse dos que estão no terreno, gratuitamente e com sacrifício pessoal. São os clubes que pagam as provas em Portugal, com o tempo e o know how dos seus colaboradores e com o apoio dos seus patrocinadores. Lembro que o custo de uma inscrição num rali, suporta pouco mais de 30% dos custos dessa prova, sendo os clubes e os seus patrocinadores que pagam o restante», sublinhou o presidente do IPC.

CAC TEM-SE PORTADO COMO UM AGENTE DE ENSINO

Para o dirigente educativo, «o CAC tem de se robustecer do ponto de vista humano». «Uma mais jovem equipa e uma maior equipa permitem ganhar outra envergadura. O CAC tem-se portado como um agente de ensino e de apoio a vários clubes na região: alguns que nasceram e morreram e outros que estão a vingar no território. Talvez seja chegada a altura de perceber qual o papel económico que nos cabe neste negócio», reforçou.

Ao encerrar a sua intervenção, Jorge Conde diz que «o CAC tem hoje know how para organizar as provas de estrada que entender, com elevada qualidade e segurança». «Falta-lhe talvez, mão-de-obra. Acredito que o CAC tem futuro, que pode impor-se como líder regional na organização de eventos, como um indirecto operador turístico e como uma instituição que usando o desporto automóvel para a sua actividade, é para o centro de Portugal, muito mais que um organizador de ralis».

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